terça-feira, 1 de junho de 2010

Sobre um dia consigo

O despertador toca cedo. É tão cedo, e o cansaço tamanho! Como não há outra escolha, você pega o celular, desliga-o e calmamente senta-se sobre a cama, buscando com pés ainda desobedientes o chinelo a ser calçado. Você se levanta e se dirige ao banheiro. Olha para o espelho, abre a torneira, molha o rosto com a fria água da manhã e enxuga-se bravamente para se manter acordado.

É tão injusto ter que se levantar depois de uma noite tão agitada, tão densa de sentimentos e reflexões. Mas você sabe que o mundo não pára, ele não espera ninguém se acertar para continuar. "It always goes on, and on, and on, and on...", você pensa. E pensando assim, sai de casa, com trilha sonora.

De certa forma, sair ao sol ainda frio e sentir a gélida brisa da manhã lhe anima. Um clima de paz acalma o coração e respirar profundamente torna-se um grande remédio à amargura que lhe acompanha em cada passo. 'Até que ponto não sou mais o mesmo?'. É essa a reflexão que lhe martela os pensamentos. É com ela que você foi dormir na noite passada após uma longa conversa que lhe testava a capacidade de responder da mesma forma que antigamente a situações semelhantes às ocorridas no passado. E você perdeu. Mudara o pensamento, mudara a forma de agir, irritou-se facilmente com bobeiras entre tantas outras coisas... e o peso da certeza que se materializara então impediu-lhe de ter uma boa noite de sono. E a certeza era essa - simples, mas de certa forma fatal: você cresceu. E isso pesou.

Para se distrair, liga o som do carro e escolhe um som que acalme os pensamentos. O pensamento voa longe, a mente se vê livre e você sem perceber batuca levemente ao volante. Chegando ao trabalho, um bom-dia para alguns, um rápido olhar distraído para outros. A manhã se arrasta vendo-se cheia de pequenos compromissos que lhe ocupam o tempo e a cabeça. Você se esquiva de algumas conversas mais animadas, pois o humor ainda não é dos melhores e procura desculpas para dar uma volta ao ar livre.

Você almoça com uns amigos, sorri, conversa e brinca. Não é de todo aquele rapaz de anos atrás, mas ainda é capaz de sentir o valor de pequenos momentos de comunhão de idéias e a importância de uma boa conversa jogada fora.

A tarde voa como se você não estivesse protagonizando a própria peça. Mil afazeres, pouco tempo. Seu espírito quer voar, mas as regras do mundo adulto lhe impedem de desfrutar um segundo de paz. Você se sente aprisionado à rotina insossa que perpassa seus dias. Dias valiosos, dias cheios de possibilidades. E a impressão que lhe fica é que o tempo de arriscar, dançar, jogar, querer, buscar... esse tempo passou. Resta a você resumir os dias à mesmice e, vivendo um dia de cada vez, esperar que os anos passem, as coisas aconteçam e, quem sabe, você deixe o mundo com um sentimento bom.

E você chega em casa. Doze horas após ter acordado, você pode livremente escolher o que fazer. Vê-se ante algumas possibilidades e está ciente de que 'cada escolha é uma renúncia'. São poucos os momentos livres e saber acolhê-los e aproveitá-los é coisa de artista, um artista que conhece a Arte da Vida. "Infelizmente", você pensa, "não nos ensinaram essa matéria na escola".

E então você decide. Liga para um amigo e marca uma cerveja no bar. Muitos são chamados, poucos aparecem. Você não os culpa. São os afazeres da vida.

E vocês bebem, e falam e riem. Petiscam e relembram histórias que marcaram cada coração. Projetam o futuro e descobrem em cada um a mesma ânsia de viver uma vida vivida. E voltam para casa aliviados. Respirar o ar limpo de uma amizade é melhor remédio para qualquer amargura ou desgosto.

Já em casa, você entra no banho e deixa a cabeça encontrar o seu lugar. Não se força a pensar ou refletir, já é hora de a mente também ser livre de si mesma. Com o corpo limpo, os dentes brancos e a cama arrumada - tudo preparado para o sono - resta a você olhar-se no espelho novamente.

O rosto amadurecido é sinal claro do tempo e das mudanças que ele produz. Você não sente vontade de voltar atrás e reviver o que passou. Você não sente vontade de ser daqui pra frente o máximo, o melhor. Você apenas se olha no espelho e reconhece, entre tantos outros traços antes inexistentes, aquela criança, aquele adolescente, aquele jovem que construíram o seu presente. Você os reconhece no espelho, e os cumprimenta. Agradece e ensina - ainda que a lição venha demasiado tarde. Mas também com eles aprende. E encontra dentro de si - vivos, respirando, amando - todos aqueles que você já foi, todos aqueles que te fizeram ser você. E o presente ganha o significado novo de uma construção. Uma construção feita tijolo por tijolo, escolha por escolha. E se hoje o espírito se sente preso, é por que se quis criar para ele um belo lar. E não é preciso destruir esse lar, mas talvez reformá-lo.

E você sabe que o homem no espelho tem a capacidade de escolher. E você delega a ele a função de se fazer feliz.

2 comentários:

  1. Massa!
    Principalmente os dois últimos parágrafos!

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  2. Caracaaaa... sem dúvida, dos seus melhores textos! =P

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