quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sobre heróis e dragões

... O grande e terrível dragão finalmente apareceu na cidade. Todos temiam por esse dia e ficaram espantados quando o lagarto voador soltou fogo por suas enormes narinas. Muitas casas começaram a pegar fogo e, no castelo do rei, a princesa gritava e gritava desesperada, com medo de seu povo ser atingido pelas chamas. Quando o dragão ouviu os gritos da princesa, voou até o castelo e, planando sobre as janelas, agarrou a donzela com suas garras. A princesa gritava eufórica por socorro para que um herói pudesse salvá-la. Assim, os dois voaram até a montanha do dragão e lá ficaram por muitos dias. Eis que apareceu um pobre, mas valente, camponês e se pôs à disposição do rei para salvar a princesa. O rei, que já estava desolado e sem esperancças, lhe entregou um cavalo e uma armadura. O pobre camponês se dirigiu temeroso até a montanha, decidido em salvar a princesa, mesmo que disso dependesse sua vida. Ao chegar na montanha, encontrou o dragão, contra quem lutou durante dias e dias sem cessar. E o camponês cansava-se, mas não desistia de tentar. Até que um dia, finalmente apunhalou o dragão em seu coração, e salvou a princesa dos perigos... ...

Maria virou outra página do livro, mas percebeu que o pequeno Léo já estava dormindo. Afagou seu cabelo e beijou-lhe a testa, desejando-lhe uma boa noite. Enquanto Maria passava pelas camas dos outros garotos de rua, Léo entreabriu os olhos e perguntou-lhe:

- Mãezinha - Maria sempre se emocionava ao ser chamada de mãe por aqueles meninos -, existem heróis como esse da história?

Maria voltou até a cama de Léo, sentou-se ao seu lado e, ainda sentindo o frio da noite, respondeu-lhe:

- Você gostaria que existissem?

- Sim! - o garoto estava sonolento, mas seu olhar mostrava uma decisão firme em obter aquela resposta. Maria aprendera a dar valor a isso durante os anos em que se doou àquelas crianças. Elas não tinham lar, não tinham pertences e não tinham família, tudo o que tinham era a si e às suas dúvidas, medos, e esperanças, expressados das mais diversas formas. E era preciso levar a sério tudo aquilo.

- Você gostaria que existissem dragões?

- Não - o menino respondeu assustado.

- Então não são precisos heróis.

Maria piscou o olho e deu um sorriso para Léo.

- Agora vá dormir.
- Tá bem, boa noite. Amanhã de manhã você ainda estará aqui, não é?
- Sim, Léo, sempre estou. - Sua voz saiu embargada e uma lágrima ameaçou-lhe escorrer do rosto.

Quando Léo finalmente adormeceu, Maria passou pelo quarto observando cada menino. Eram muitos, deitados em beliches bambas em um dormitório espaçoso, mas super lotado. "E tantas outras ainda estão nas ruas...", pensou.

Maria dirigiu-se ao refeitório. Tudo estava escuro e silencioso, bem diferente de como o abrigo ficava durante o dia, cheio de crianças correndo, pulando e às vezes chorando. Elas se alegravam e brincavam, mas, quando a noite caía, a solidão lhes batia na porta. E isso doía-lhes.

Abriu a geladeira e encontrou algumas poucas frutas que sobraram das refeições do dia. Sentou-se em uma mesa com uma banana e uma maçã e comeu pela primeira vez desde o almoço. Não era fácil cuidar de tantas crianças - dar banho, fazer almoço e jantar, confortar, alertar e corrigir, e tudo isso com o pouco dinheiro que a instituição recebia - mas ela escolhera aquela vida para si e sabia que valia a pena abdicar-se por quem precisava mais de si do que ela mesma.

Enquanto isso, Léo e outros meninos sonhavam em suas camas. Sonhavam com dragões e monstros, mas sorriam. Sorriam, na certeza de que existem heróis.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Sobre uma tarde agradável

Aquela sim foi uma tarde agradável. Depois de muitos dias passando horas e horas dentro de uma sala onde não chegam os raios solares, João e Maria se juntaram e foram para um gramado próximo ao prédio da garota. Sentarem-se em cima de um pequeno morro, sob uma sombra fresca, e ficaram ali conversando sem fim.

O Sol fabricava um mosaico de luz e sombras sobre suas pernas. Eles apreciavam aquilo e deixavam-se tocar pelo vento e as horas passavam por eles sem constrangimento.

João lembrou-se de quando era criança, de como costumava subir em morros como aquele com uma folha de papelão em mãos, e de como descia o morro escorregando sentado sobre o papelão. Lembrou-se de como se machucou vária vezes nessa brincadeira, e das muitíssimas vezes em que a bunda saía dolorida ou o corpo todo pinicado.

- E como era bom. Subia a ladeira, esperava algum amigo descer e ia atrás dele. Às vezes até nos esbarrávamos lá em baixo, quando havia algum apressadinho. E ríamos...

- Que criança nunca fez isso, né? - lembrou Maria.

- Bons tempo aqueles - disse João, olhando distante, para os carros que passavam na rua a vários metros de onde estavam.

Maria também recordou sua infância. Pular amarelinha, elástico. Contava com uma amiga os carros que passavam na rua. Se passassem mais carros vermelhos, ela ganhava, se passassem mais azuis, quem ganhava era a amiga. E brincar de boneca? Era criar um mundo sem problemas e onde o tempo e a distâcia simplesmente não existiam. Criava-se um mundo ideal, em que não haviam discussões ou dores.

- Esse era o meu mundo de criança - a garota completou. - E penso que deveria ser o mundo de todas as crianças. Um mundo de sonhos e de muitas possibilidades. Um mundo de todas as possibilidades. O pior pecado contra a humanidade é privar os pequenos da imaginação, de viajar em seus sonhos e conquistar em suas mentes um mundo mais digno para todos. Só assim elas crescem capazes de acreditar, criar e transformar a realidade.

- Quando paramos de sonhar... - disse João pausadamente, como que descobrindo naquele momento o que iria dizer - ... é então que crescemos?

- É - respondeu Maria melancolicamente. - Acho que é isso.

- Eu não quero crescer Maria.

- Eu também não, João.

E passaram o resto da tarde contando os carros que passavam. E - quem ganharia a partida - aquele era o único problema a ser resolvido. E foi agradável assim, como as coisas simples devem ser.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre o que é nosso...

E por que nos vemos livres, nos sentimos sós. Prestes a fazer escolhas que transformem nossos destinos. Mas por mais que tentemos compartilhar, a decisão é apenas nossa e de mais ninguém. E aí mora a solidão.

A solidão de dar um passo sozinhos e sem braços que nos sustentem. E caminhando seguiremos, com rostos e mãos conhecidos ao nosso lado. Mas, aqui dentro, o que nos impulsiona a caminhar é nosso, e somente nosso.

E aí mora a solidão...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sobre sorrisos

Sorrisos! Eles são encantadores e cativantes.

Penso que o mundo seria mais feliz se sorríssemos mais. Melhor ainda seria o mundo se aprendêssemos a contemplar a beleza e a dar o valor devido ao sorriso que nos é dado. E que o retribuamos é também fundamental.

Pois é bem verdade que não há quem não se desarme de sua rabugice ante um sorriso sincero e inocente de uma criança, ou de um sorriso fofo e desdentado de um bebê. As crianças conquistam com seus dentes à mostra, lábios abertos, risos contidos. E o mundo parece menos problemático quando admiramos um alguém sorrindo alegremente, apesar dos pesares...

Falo sobre sorrisos hoje por que me encantei com uma pessoa. Nutricionista de um restaurante. Sempre sorrindo para os clientes. Sorriso pra dentista nenhum colocar defeito. E um sorriso constante. Parece até que pôs botox! Mas não, é bem natural e sincero. Percebe-se que é prática de vida, e não obrigação da profissão. Quem sai da sua presença, sai um pouquinho melhor do que antes.

Vê-la hoje fez-me lembrar 3 outros belos sorrisos que já me deparei ao longo da vida. Tarefa árdua descrevê-los (tente aí, você, descrever um sorriso), mas vou tentar.

O primeiro deles (em ordem cronológica de aparecimento na minha vida) é de uma amiga do Ensino Médio. Olhos um pouco puxados, orelhas levemente pontudas (o rosto é como o contexto de todo sorriso), "A" sorria sem intimidar-se, mostrando dentes brancos e bem no lugar. Era um sorriso meigo que trazia calma e cativava. "Vens visitar-me todos os dias. Mas ass 4h, por que assim, desde as 3h estarei feliz", dizia o Pequeno Príncipe e completaria se conhecesse essa moça: "E venha com seu sorriso estampado no rosto, por que assim alcançarei tranquilidade." Tranquilidade, calma, paz. Tudo isso ela transmitia com um simples sorriso.

Outro que merece comentários é de outra garota (me perdoem, mas não reparo tanto em sorrisos machos). Loirinha sapeca, é a primeira impressão que se tem dela. Passe um dia com "B" e comece a desconfiar: "Essa sim colocou botox!". "B" tem um sorriso constante, quase eterno! Eterno no pleno sentido da palavra: aquilo que sempre existiu e que sempre existirá. Desconfio que "B" sorri até quando chora.

E por fim o sorriso de "C". Diferente dos demais, mas não menos conquistador. Algo que chega a ser sexy sem jamais ser vulgar, o sorriso de "C" se aproxima mais de um "biquinho", sem deixar de ser sorriso. Lábios levemente torcidos para um lado, não raras vezes acompanhados de uma sombrancelha levantada. Encantador, e por que não dizer, apaixonante.

Há muitos outros sorrisos rolando soltos por aí. Alguns despretensiosos, outros forçados mas não menos belos. É preciso parar e reparar como eles podem mudar um dia. Se os olhos são a janela da alma, o sorriso é um ladrão que a arromba e a invade sem pestanejar. Veja-se cantarolando na rua um dia e pergunte-se o que aconteceu para te deixar feliz: pode ter sido um sorriso recebido. De uma atendente, de um balconista, de uma criança ou de um senhor.

O sorriso é poderoso e é preciso usá-lo. Sorrir, e apreciar sorrisos.

Também é preciso fazer sorrir. Não há melhor ação social, não há maior caridade.

A melhor e mais digna profissão que existe é a do vendedor. Ela ainda vai mudar o mundo.

- Quanto custa essa coca?

- A coca? 3 reais, mas faço por 2 e um sorriso!

Sobre pique-esconde

Quando eu era criança, costumava brincar de pique-esconde embaixo do bloco. Como eu brincava com gente grande, eu era café-com-leite. Era sempre assim: eu me escondia, bisbilhotava e corria, e quando chegava no pique gritava bem alto "1,2,3 Salve eu". E sorria, feliz e contente por ter ganhado.

Só não sabia eu que, por ser café-com-leite, quem contava não se importava em ir atrás de mim. Tanto não se importava que certa vez eu fui esquecido. Foi assim:

Consegui um excelente esconderijo. Era tão bom - e eu sabia disso - que não quis sair para bisbilhotar com medo de ser pego do lado de fora. Ali pelo menos eu tinha certeza de estar seguro. E para mim não importava quanto tempo o jogo iria durar até que me encontrassem. Importava que eu bateria o recorde de tempo escondido sem ser achado.

Mas eu era café-com-leite, então nem me procuraram tanto assim. Fiquei lá, escondido, espremidinho entre três paredes e uma caixa. Não me mexia para não dar pista. Quietinho no meu canto. Sobressaltava-me ouvindo passos próximos e aliviava-me quando se iam.

E o tempo passou, mas quando se é criança o tempo é muito, muito relativo. Hoje lembro que foi tudo em um piscar de olhos, mas, naquele dia, a criança espremidinha deve ter se angustiado um tanto, suspirado um monte e dado asas à imaginação para fazer o tempo passar. Não me lembro, mas deve ter sido assim. Quando quase escurecia, desisti de deixar me procurarem. Saí do esconderijo e fui para o pique, só para descobrir que não havia mais ninguém jogando.

Entristeci-me e chorei, sentado e encolhido, encostado na parede do pique. Coisa de criança que se sente abandonada e injustiçada. Chorei um chorinho gostoso, de quem só quer um carinho do papai e da mamãe. E não é que, enquanto eu chorava, os dois chegaram? Viram-me com rosto molhado e o enxugaram.

Contei tudo pra mamãe. E como num passe de mágica - êta raça porreta essa das mães - o choro se transformou em riso.

Fazendo coceguinha ela me disse:

- Meu filhote é campeão do esconde-esconde! - e piscou para o menininho todo sujo.

E subimos para casa, para um banho quentinho na banheira até os dedos enrugarem e uma sopinha cheirosa antes de ouvir do papai uma história para dormir sem pesadelos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sobre solidão e presença

Lá estava ele, sentado sob as estrelas, molhando as calças no sereno da noite, sem se importar. Dirigiu-se para o mais longínquo ponto da fazenda de seu avô. Lá onde não existem luzes, onde os homens não se importam em chegar, e a natureza é soberana em seu reinado. Sentou-se em um vão entre as árvores. Escuro e silencioso como se estivesse em lugar nenhum. Olhou para o vasto firmamento distante e contemplou as estrelas em todo o seu esplendor.

João fugia. Sim! Esta noite, como um desesperado, um homem desamparado e covarde, João fugia de toda a realidade que o circundava, dia e noite, dia após dia... Estava cansado de procurar e não encontrar. Estava cansado de sentir emoções intensas e no final querer mais, mas sem ter tido a sensação de satisfação, de saciedade. Saciar-se. Queria saciar-se de algo, de alguma maneira, mas tudo o que lhe era apresentado o prendia de forma brutal, até lhe deixar em um estágio letárgico, necessitado de mais e de mais e de mais...

E, então, decidiu fugir.

Fugiu daquela realidade que conhecia. Realidade que, estranhamente, lhe parecia forçada e maquiada. Maquiada por mãos humanas imperfeitas que "propagandeavam" beleza e bem-estar onde só havia distração.

O céu estava coberto de pequenas luzes que João sabia terem sido emitidas a bilhões de anos atrás. "Eu... tão pequeno." Pensava. Vislumbrou em um mesmo momento duas estrelas cadentes que brilharam intensamente por um breve segundo formando um arco no céu.

"O homem foge dessa visão. O homem quer se sentir grande, e aqui se sente tão pequeno. Então ele foge e se refugia em sua própria criação, tão menor e menos imponente que a verdadeira criação." Os pensamentos voavam e sumiam como as estrelas cadentes.

Ali, distante de todo o universo pessoal criado pelos homens e por si mesmo, João sentia o triste desabrochar da solidão. No silêncio e no escuro daquela paisagem fria, desprotegido, longe do forte que construíra para sua própria segurança, João sentia uma impotência e uma insegurança esmagadoras. Temia não por sua vida, mas por sua sanidade. Era silêncio e escuridão profundos, e ele não estava acostumado a isso.

Deu-se conta de que havia fugido e se distanciado para ouvir o silêncio, para fugir da correria e das fortes emoções. Não podia voltar sem levar consigo uma experiência que valesse a pena. Decidiu ficar e encarar os seus temores. Queria se acostumar ao silêncio, então calou-se e tentou diminuir o ruído da respiração.

Os pensamentos iam soltos. Pensava em como contaria a seus colegas sobre essa experiência; em todas as coisas que poderiam acontecer ali naquela noite escura; lembrou-se por um tempo de sua ex-namorada, com quem gostaria de ter partilhado um pouco mais de si, com quem gostaria de ter passado momentos de simples silêncio e troca de olhares. "É o ritmo frenético dos dias. Eu me assustava tanto em pensar em momentos de silêncio com ela. Achava que faltar assunto, com qualquer pessoa que fosse, era sinal de desinteresse, ou de falta de papo. Quanta besteira. O silêncio aproxima as pessoas, o silêncio nos faz partilhar o coração. Quantas vezes não nos protegemos e criamos máscaras com as palavras... O silêncio nos faz abaixar a guarda."

E os pensamentos se iam. De um lado para o outro, pulando de galho em galho. E os minutos passavam, e a solidão era sentida. Cada vez maior.

"Estranha sensação. Estranha solidão. Não como aquela que sentimos mesmo quando estamos rodeados por pessoas. Solidão triste aquela. Dá a sensação de que há uma parte de nós que nunca é compartilhada. Faz-me pensar que no fundo, todos somos solitários, todos estamos sozinhos, cada um por si, por que nunca seremos capazes de nos abrir por inteiro a ninguém. Por que há algum lugar em nós que é incapaz de se doar, e há algo nos outros que somos totalmente incapazes de alcançar. Mesmo marido e mulher, mesmo mãe e filha. Há um lugar em que nem mesmo nós alcançamos. Ali mora a solidão profunda."

João permaneceu assim por algum tempo. A noite ia longe, o frio aumentava e seu corpo já estava cansado de estar sentado; as costas doíam e a perna adormecia. Levantou-se e deu uma pequena volta. Sentiu o aperto no peito ao se perceber mais uma vez sozinho... Segundos antes pensava tão vivamente em tantos assuntos que não aproveitara, nem percebera, a falta de alguém. Decidiu silenciar o próprio coração. Decidiu silenciar os próprios pensamentos. Deitou-se na relva molhada e gelada, olhando para o firmamento.

Pensamentos continuavam assaltando a mente de João, mas agora a solidão e a ausência eram mais palpáveis. Estava só consigo mesmo. Entrava nas entranhas de seu próprio ser, vez ou outro afastado de si por preocupações e pensamentos vãos. Esforçou-se por continuar o exercício a que se propora. Afastava cada pensamento, cada preocupação. Esvaziava aos poucos a mente.

A luta travada durava já vários minutos. Em alguns momentos adentrava no próprio silêncio de forma profunda e amedrontadora. Encontrava em si lugares e sensações desconhecidas e silenciadas pelo dia-a-dia. Voltava à superfície de si quando algum inseto desviava sua atenção, mas voltar ao estado anterior se tornava cada vez mais fácil, como se tivesse que percorrer um caminho outrora pedregoso e perigoso, mas agora já aplainado.

Adentrou no mais profundo do seu ser. A noite era só silêncio e as estrelas refletiam em seus olhos fazendo-os brilhar lindamente.

Solidão. Aproximava-se de um abismo escuro e profundo que nunca vislumbrara em si. Chegara a lugares onde nunca estivera e que o repugnavam de tanto mistério. Sentia ali uma solidão imensa e perturbadora. Jamais seria capaz de partilhar aquela parte de si: era muito profunda, era muito EU para poder ser entregue e explicada a um VOCÊ. Era uma parte de si onde morava apenas a solidão, apenas o SER e não a RELAÇÃO.

João contemplou aquele lugar, que não era um lugar, mas uma sensação, uma parte perdida de um todo que aparentemente estava completo. Era bem complexo assim.

Alcançou finalmente o completo silêncio do Ser e da Alma.

...
...


Silêncio.

...
...

E ali, na presença de uma completa ausência, João permaneceu por muitos minutos. Estava absorto em uma tristeza profunda e sem limites. A solidão das solidões. Uma amargura súbita e um esmagar do coração atingiram-lhe. Um choro incontido rompeu a barreira de seus olhos, e lágrimas foram despejadas pelo solo verde. Era um pranto amargo de quem descobria a total ausência de um ser. Uma tristeza pesada. Um choro ácido.

Chorou.

E ali, na ausência de qualquer presença aparente, João finalmente pôde sentir. Suave e forte, tímido e imponente... João encontrara finalmente o que procurava, sem nem mesmo ter buscado. A tristeza se transformou em júbilo - não uma histeria eufórica de um carnaval ou de uma embriaguez -; o júbilo indescritível de quem encontra a razão de uma vida toda.

No mais profundo de seu ser, no mais íntimo de si, onde não há ser humano que possa chegar, partilhar, alcançar... Ali, onde todo ser humano é o que é e nada mais; onde não há máscaras; onde só há a sua dignidade e nada mais; ali onde há a total aparente solidão, paradoxalmente, João pôde sentir: uma doce e suave presença. Mesmo ali, onde só havia solidão, havia uma presença: A Presença!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Sobre liberdade

Lá embaixo, no fundo do precipício, as ondas arrebentam. A espuma formada se esvai enquanto novas ondas atingem a encosta de pedra. O mar ruge. Seu ruído chega até o topo do morro, a mais de mil metros de altura. Vez ou outra, vislumbram-se carangueijos andando por entre as pedras, arriscando a própria vida em busca de uma toca mais segura, ou de uma presa desatenta. As ondas atingem as pedras; vêm e vão, abrindo sulcos minúsculos que mais tarde formarão uma bela escultura.

Enquanto isso, o sol desponta no horizonte, onde o mar e o céu se tocam. A aurora envia seus primeiros raios para a folhagem exuberante que cobre o topo da encosta. A natureza clareia e os bichos noturnos dão vez aos que apreciam um pouco de sol. O astro-rei sobe, aos poucos, no céu azul e sem nuvens, esquentando o dia e convidando a um passeio ao ar livre.

Sentindo o calor do novo dia, em um ninho escondido entre pedras, a águia acorda. Abre seus olhos de caçadora lentamente, acostumando-se ao brilho intenso do sol. Suas pupilas se fecham e suas pálpebras piscam várias vezes. Ainda sonolenta, esfrega a asa esquerda em sua cabeça suavemente, recostando o bico sobre o abdômen. Prende suas garras ao chão, abre as imensas asas demonstrando uma envergadura de quase dois metros e as bate apenas uma vez para espantar o cansaço, como se estivesse se espreguiçando. Ela contorce seu corpo e se ajeita em pé sobre o ninho, de lado para o sol. Sua postura é bela e de uma realeza visível. Se o leão é o rei da floresta, sem dúvida a águia é rainha dos ares. Ela solta um piado alto. Fecha os olhos, cala-se e respira levemente para ouvir os sons da manhã que nasce.

Já com a vista acostumada à claridade, vira-se para o horizonte. Aguarda uns segundos, parada, como que se exibindo. Dá um passo para a borda do ninho. Encolhe o corpo, abre as asas e pende-se, mirando a vista para as ondas que quebram a muitos metros abaixo. A altura é imensa, a queda é mortal... mas ela sabe que tem asas... Aguarda...

... deixa-se cair livremente, olhos fechados, sentindo o ar fresco fazer caminho entre as penas. As pedras passam rapidamente a poucos metros de seu corpo. Ela sente o corpo em queda, e o som do atrito do ar com seu bico e suas penas. Deixa-se cair por uns segundos, segura. Majestosamente, estica o corpo para a frente. As asas seguram-na no ar. A queda pára e a águia agora plaina sobre as ondas do mar, tranquila. Ela se vê pouco acima do oceano, distancia-se da encosta e olha o mar que se acalma à medida que se afasta do continente.

As águas límpidas e azuis do pacífico. O imenso oceano azul. Milhares de quilômetros de água e mais nada. A águia bate forte as asas para pegar altitude. Voa bravamente contra o vento leste. Voa. Voa livre, como as águias devem ser. Tendo como gaiola o mundo inteiro e nada mais.

Ganha altura e alcança uma altitude razoável, próxima às nuvens, se houvesse nuvens no céu. Plaina, admirando o esplendor do sol que já vai a pino. Enverga-se para a esquerda e dá uma meia volta. Voa velozmente, em paralelo ao continente. Bate as asas. Sobe. Mergulha no ar sentindo a brisa. E plaina. E sobe. E bate as asas. E brinca com o ar, se esquentando no sol. E desce junto ao mar pra se refrescar. Sobe novamente, forçando as grandes asas. Enverga-se para a direita, e voa fazendo círculos no ar. E voa, e voa, livremente.

Quando o instinto avisa, é hora de voltar. A águia, já bem distante da costa, retorna para o ninho, voando vagarosamente, aproveitando cada momento da doce viagem. Ainda na volta, ela já observa os movimentos nas águas azuis, procurando o melhor lugar para caçar. Assim que chega ao ninho, se recolhe sobre as sombras um minuto, restaurando as energias.

A ave agora está em seu momento mais desperto. A vista aguçada trabalha incansavelmente, detectando cardumes e cardumes de presas suculentas. A visão alcança incrivelmente longe, e ela pode ver com clareza cada peixe que se nada próximo à superfície das águas.

Sentindo o vento, instintivamente percebe a velocidade e a inclinação a serem tomadas. Prepara-se com cautela. Aproxima-se da beira do precipício. Abre as asas e, num pulo, alcança os ares. Vira o corpo para baixo e investe em alta velocidade contra o grande oceano. Fecha as asas e cai velozmente, arrumando o corpo na medida da necessidade. A queda é rápida. Novamente, ouve os sons vindos do atrito do ar com o corpo. O oceano se aproxima de sua vista a uma velocidade ameaçadora, mas ela está treinada pelo instinto. A visão continua trabalhando, escolhendo entre as centenas de peixes aquele que será pego. A água se aproxima. A queda é ainda mais rápida. Escolhe e presa, abre as asas, ergue o corpo, estica as patas e abre bem as garras apontando-as na exata posição do peixe.

Sente as garras pegar o alimento e as fecha, cravando as unhas afiadas no corpo do animal. Bate as asas para parar a queda e começa a subir. Vira-se para a encosta novamente e carrega a presa até o ninho. O peixe se debate em suas garras, mas logo estará completamente imóvel. A águia alcança o ninho. Enfia o bico com agilidade sob as escamas e devora sua comida, calmamente.

A noite se aproxima. O pôr-do-sol é maravilhoso e águia o admira saciada e cansada. A lua desponta no céu estrelado, a ave mantém guarda durante algumas horas e depois se deita para descansar. E não se preocupa com o dia de amanhã...