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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sobre outras coisas

- Já se perguntou para onde esse barco vai?
- Pra onde vai? Como assim?
- É. Pra onde ele vai. Onde ele vai atracar, que rumo ele está tomando, sei lá...
- Atracar? Rumo? Como assim?
- ...
- Acho que ele apenas vai, não?
- Hm. Talvez. Mas não sei. Tenho a impressão de que ele deve... estar indo a algum lugar diferente.
- Tipo que lugar? Ou melhor, que tipo de lugar? Um lugar... um lugar mais... sei lá, como assim que lugar?
- Olha só. Sabe todas essas pessoas que estão aqui no barco?
- Han. Sei.
- Então. Já pensou que podem existir mais pessoas. Diferentes. Talvez outros barcos. Ou, até mesmo, outra coisa que não seja o mar. Um lugar onde a gente possa pisar como pisa no barco, mas no lugar do mar. Ou talvez um barco bem grande. Onde tenha mais gente, muita gente!
- Você está variando, não está?
- ...
- Outras pessoas? Outros barcos? Você não acha que a gente já os teria visto nesses sete anos? Não tem nada além do mar, tá vendo? Olha lá longe, não tem nada. Nem desse lado, nem do outro. Nem de lado nenhum.
- ...
- Hmf... Se você fosse menos sonhador, trabalharia melhor, sabia?
- Eu sei. Só acho que seria legal conhecer outras coisas...
- Que coisas, João, não existem outras coisas.
- Maria, tem que existir... Isso daqui cansa.



Às vezes, quando vou escrever, sento e começo a história/poema/o-que-quer-que-seja com a primeira frase que vem em minha cabeça. E da mesma forma como a primeira frase apenas vem, o resto também vem. Não necesseriamente penso em uma mensagem que queira passar ou me abrir sobre um sentimento meu. Apenas escrevo e vou tentando deixar legal.
Com isso quero dizer apenas que não estou cansado da vida, tá? Embora esse texto dê margem a outras reflexões que talvez condizam com algumas coisas que tenho passado. Só pra esclarecer...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sobre um céu cheio de estrelas

João, nosso intrépido personagem, personificação dos sentimentos cotidianos de todos nós, em mais uma de suas empreitadas...

"Para sempre", pensou. "Para sempre é muito tempo".

João estava deitado de costas em sua cama, braços abertos, mãos sob a cabeça, olhando para o teto estrelado de seu quarto. Desde criança gostava de observar o céu. Aprendeu algo sobre astronomia em umas revistas vendidas na banca de jornal. Comprou estrelas que brilham no escuro e montou suas próprias constelações: aquelas que brilham somente no seu quarto e guiam um único marinheiro perdido: seu coração.

João se acalmava contemplando seu próprio firmamento. Olhá-lo era como contemplar-se. Era como olhar para dentro de si. Às vezes pensava que poderia ficar eternamente fitando-o, desafiando-o a falar sobre si mesmo.

"Para sempre não é muito tempo para quem é feliz onde está. Para sempre não é muito tempo para quem vive procurando se encontrar." Sorriu. "Essas frases dariam um bom poema".
Afastou o pensamento. Escrever jamais fora o seu forte, assim como milhões de outras coisas que nunca soubera fazer.

Então, levantou-se de um salto, "dizem que nunca é tarde para começar". Pegou papel e caneta e começou a escrever. Escreveu a noite inteira. Rabiscou, rasgou, jogou fora. Escreveu sobre o que queria, sobre o que amava. Descreveu seu quarto, sua casa. Contou sua infância. Inventou histórias. Resumiu livros que já lera e os que inventara, mas que jamais pararam no papel.

O sol raiou e João sorria. A luz do dia apagou o brilho das estrelas.

Foi trabalhar exausto, mas feliz.

Ao fim do dia, ao recostar o corpo sonolento na cama, olhou para seu pequeno céu particular e pela primeira vez percebeu quanto espaço ainda havia para outras estrelas. Levantou-se, pegou algumas estrelas fluorescentes e colou-as ao lado de uma outra constelação.

Deitou novamente. Contemplou seu novo céu. "Apenas algumas estrelas a mais e tudo parece completamente diferente", pensou: "Talvez, para sempre seja pouco tempo para quem se desafia e tem um céu inteiro para fazer brilhar".

Dormiu.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sobre ser vivo

Ao fim da noite, João reclinou a cabeça para dormir. Finalmente! Não suportava mais a terrível impressão que tivera de si ao longo de todo o dia. Um mero espectador do próprio show.

Desde a hora em que saiu de casa pela manhã até a hora em que se deitou, João apenas presenciou uma série de fatos; contracenou como mero coadjuvante em uma série de atos; reproduziu falas pré-formuladas por roteiristas que ele sequer conhecia. João apenas assistiu ao espetáculo da própria vida.

Simplesmente, teve a impressão de que tudo aconteceu independente de sua vontade. Ainda que não estivesse presente, tudo aconteceria absolutamente igual. Ele não atuara, não fora peça de improviso, nem elemento surpresa. Apenas mais um peão na mão do enxadrista, movido segundo sua vontade e conveniência. Não modificara o que queria, apenas aceitara o que lhe fora imposto. Não deixara marcas indeléveis, apenas poeiras passageiras.

João reclinou a cabeça e pensou. Pensou que queria dormir e acordar somente na hora de partir. Dormir aquele sono pesado, que não se abala por nada. Não tendo que assistir o roteiro escrito por outros para a sua própria vida seria mais suportável viver.

- Vou dormir e torcer para acordar tarde, bem tarde. E, quem sabe, ao menos sonhar com o que espero. Assim, continuarei sendo platéia de meu próprio show, sem, nem mesmo, direito a camarote. No final, talvez, valha a pena aplaudir.