Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre despreocupar-se

Mais uma vez se via sem iniciativa diante de tantas coisas que aconteciam em sua vida. O propósito de ano novo de ser mais seguro de si, confiante e proativo já ia se desfazendo logo nas primeiras semanas do ano. A consciência de que tão pouco dependia dele impedia-lhe de agir, fazendo com que permanecesse parado, quieto, sem movimentos e perdido entre um ato e outro do teatro em que viraram seus dias. Um teatro em que o ator principal parecia ser... o acaso talvez.

Mas, pensava consigo, que podia fazer se pouco dependia dele? E isso não era fuga, tampouco era desistência. Era fato consumado. Doloroso, mas fato. Dessa forma, cansado de lutar contra forças que não podia mover, decidiu que gastaria suas energias em algo em que pudesse fazer diferença real e substancial. Entregou-se ao acaso naquilo que não mudaria, desprendeu-se da preocupação de fazer dar certo e relaxou pela primeira vez desde as zero hora do primeiro dia do ano. Percebeu que o peso de fazer novo o que era velho impedia-lhe de saborear a beleza da mudança e que a mudança não aconteceria se permanecesse pregado de preocupação e culpa.

Ao se permitir não agir e não tentar controlar tudo ao seu redor, potencializou energias naquilo que poderia mudar. E começou assim, primeiro um passo, depois outro, na esperança de ir longe, bem longe e, quem sabe um dia, poder voar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sobre um menino e um capitão

O capitão levantou com a aurora amanhecendo no horizonte. Caminhando pela areia lentamente, espreguiçando-se, apenas meio acordado, contemplou o imenso mar azul pelo qual deveria navegar. Seus olhos lacrimejaram. Seu coração ardia, batendo em disparada. Suas mãos, mãos de ferro e de brandura, dançavam no ar guiando como um maestro as ondas do mar. Rejubilava-se. Em um dia estaria embarcando rumo à última de suas viagens. Esperou pacientemente o sol se erguer majestoso, enquanto, aos poucos, toda a cidade acordava e dava vida às ruas e ruelas. O porto foi enchendo preguiçosamente e os ruídos dos barcos e máquinas se sobrepuseram ao leve e doce som do mar. O marulhar levantava os barcos suavemente enquanto a orla ia se desfazendo à medida que mais barcos e canoas se achegavam ao porto.

Tudo era movimento. Tudo era som. Tudo era pressa. E tudo contrastava com a maravilhosa calmaria do mar, com o doce som das ondas a bater nos rochedos nus, com a harmonia do gigante que ora dormia sereno, ora roncava alto, qual cão de guarda atento aos perigos da rua. O capitão amava o mar, e gostava de imaginá-lo assim, como um gigante adormecido.

As horas passaram despercebidas. A manhã se foi sem que o capitão sequer saísse de seu posto ou falasse uma palavra. Os marinheiros o conheciam suficientemente bem para saber que não deveriam se intrometer naquela solenidade: o capitão olhava o mar, um pouco de cada vez, ouvia-o, sentia-o, deixava-se tomar conta pelos mistérios contidos em toda sua imensidão, pulsava com o mar, era um com o mar; e o mar, em retribuição, lhe lançava afagos e canções, contava-lhe histórias, tocava-lhe o coração e lhe deixava claro, claro como o céu mais limpo de nuvens, que ele, o mar, jamais poderia ser abarcado, jamais. Tudo isso acontecia sem que precisassem se tocar, como num ritual em que o divino e o humano se compartilham, sem que o divino desça ou o humano transcenda. Mas o ritual nada mais é que uma primeira porta de entrada, e dessa solenidade entre capitão e mar sempre nascia o contato íntimo do adentrar-se. Todos já sabiam, então, que o capitão partiria em mais uma viagem.

A tarde caía, o céu azul-laranja escurecia e o porto ia dormindo lentamente. Pôde-se ouvir novamente o som do marulhar, e apenas ele. Gaivotas voavam ao longe alheias ao mundo dos homens. Levantavam vôo alto e desciam em rasantes sobre o mar para se alimentarem. Tocavam leve e brevemente as águas e arremessavam-se novamente ao escuro azul do céu. O capitão acompanhava essa dança e, inevitavelmente, deitava seu olhar sobre o horizonte.

- Sabe, menino – disse, sem desviar o olhar fixo no horizonte, ao garoto que por horas estava sentado no banco, observando-o, fascinado.

O garoto se levantou de um salto, como se tivesse sido acordado de um pesadelo horrível. Estava atento e sem dizer uma palavra demonstrou todo interesse em ouvir as palavras que se seguiriam.

- ... há quem diga – continuou o capitão – que o céu e a terra se encontram na linha do horizonte. O que você acha disso?

- A... acho que... que se a gente se aproxima do horizonte, o céu e a terra só se tocam mais na frente. Sempre é mais na frente, não é?

Os dois se entreolharam. Quieto, o capitão pareceu voltar ao estado inerte daquele dia. Estava refletindo sobre as palavras do pequeno.

- É sempre mais a frente. Você me surpreendeu, sabia?

O silêncio reinou por minutos. Ambos olhavam para o mar, para o horizonte distante que jamais poderia ser alcançado.

- Eu costumava acreditar – começou o capitão, interrompendo o silêncio – que o céu e a terra se encontravam não no horizonte, mas no coração dos homens. Com suas palavras, agora, penso que talvez eles nunca cheguem a se tocar, por que sempre há mais de céu a buscar e mais de terra a se deixar.

- Capitão, será que um dia eu serei um marinheiro tão famoso quanto o senhor? – o garoto perguntou sem respirar, como se segurasse a pergunta há muito tempo.

- Famoso é o mar, pequeno. Nós, marinheiros, apenas o fazemos ser conhecido. O marinheiro que se preocupa com famas e glórias deixa de lado o mais importante dessa profissão: conhecer o mar e conhecer-se a si mesmo ao navegar.

O garoto sorriu largamente. De alguma forma aquelas palavras lhe tocavam o coração e lhe indicavam um caminho excelente a ser seguido, um percurso que valeria a pena ser percorrido.

- Eu quero me conhecer, capitão. E quero conhecer o mar.

- Esse é um belo sonho. Um sonho que vale a pena ser sonhado por que nunca será suficientemente alcançado.

Deixaram-se calar pelo resto do dia até se despedirem silenciosamente. Enquanto o menino voltava para casa equilibrando-se em meio-fios, o capitão se dirigiu a seu barco, sua casa, onde passaria a última noite próximo à terra. A lua, que até então iluminava a orla, escondeu-se por trás das nuvens, escurecendo os sonhos do capitão.

******

No dia seguinte, as nuvens decidiram não mostrar o sol. O vento gelado arriscava-se entre as ruelas e cortava as faces corajosas que saíam de casa cedo. Não eram muitos os corajosos a enfrentar o frio, somente os mais curiosos. Queriam ver o capitão e sua despedida. Era quase como um teatro ou uma dança: o capitão preparava algumas palavras de despedida para a terra, sussurrava palavras inauditas de boas vindas ao mar. Levantava velas, içava âncora, tudo em movimentos belos e serenos e comoventes. Aqueles que assistiam à quase celebração voltavam para casa um pouco mais calmos, um pouco mais íntimos da natureza e seus mistérios, um pouco mais próximos do transcendente que se deixava tocar durante aqueles breves minutos.

Quando os primeiros rostos começaram a aparecer na orla, já encontraram o capitão a meio caminho da celebração. Movia-se de um lado para o outro em silêncio profundo. Seus passos eram leves como se não quisesse acordar quem dormia no andar de baixo, o gigante adormecido. Vez ou outra, detinha-se e lançava olhares amáveis para o horizonte. Não parecia se importar com o mau tempo. Não parou quando alguns poucos pingos de chuvisco ameaçaram derrubar um grande temporal. Apenas parou alguns segundos após um tremendo trovão que assustou a todos. Parou em sinal de respeito às forças da natureza, mas logo continuou com o ritual. Ele era suficientemente próximo do mar para não temê-lo, pensavam todos.

Entre a multidão que se adensava, estava ali um pequeno garoto, nariz escorrendo, pescoço coberto por um grande cachecol que quase o afogava. Depois de observar o capitão à distância, aproximou-se do navio e sem hesitar subiu as escadas para dentro. Admirou tudo ao seu redor. Sorriu sozinho. Sonhou para dentro.

- O senhor pode me levar consigo? – perguntou sem olhar para o capitão, ainda admirando tudo o que via.

- Fala comigo ou com o mar? – respondeu o capitão, igualmente sem olhar para o capitão.

- Com o senhor... eu acho.

- Não posso te levar. Não sei para onde vou.

- Não me importo, gostaria de ir mesmo assim.

- Não posso te levar, pois provavelmente eu não voltarei.

O garoto abriu a boca para responder prontamente, mas um fio de medo e responsabilidade perpassou sua mente antes que pudesse pronunciar qualquer palavra. Deve ter pensado em seus pais, sua casa, seus amigos. Tinha o sonho de desbravar o oceano, mas... havia tantas implicações. Antes que pudesse responder, calou-se. Acho até que se entristeceu. Silenciado, permaneceu admirando, mas agora era um admirador distante, alguém que acha belo e só, sem querer possuir.

- Acho que não vou, então. Ainda tenho algumas coisas para fazer por aqui – disse com voz inocente.

O capitão sorriu e olhou carinhosamente para o garoto. Reconheceu nele a criança que fora um dia. Imaginou quanto de vida poderia ensinar a ele.

- Ainda há muitas coisas a serem feitas, não tenho dúvida. Quando elas estiverem prontas e você não tiver mais com o que se preocupar e se nos encontrarmos por aí... – calou-se. Não espere que não haja mais nada a ser feito. Quando achar que é hora de seguir viagem, vá.

- Certo. Eu acho.

- Você sabe qual a maior invenção da humanidade, garoto? – o capitão continuou andando pelo navio, arrumando algumas poucas coisas. De onde estava, tinha que gritar para se fazer ouvir.

- Não – o garoto gritou de volta.

- É o sonho – ouviu como resposta o capitão gritar. – O sonho é a maior invenção da humanidade. Foi quando começamos a sonhar que passamos a saber o que queríamos no mais íntimo de nosso ser. O sonho pode ser transformador e encorajador, mas também pode ser uma grande prisão se não houver algo muito importante dentro de nós.

Fez-se silêncio enquanto o capitão voltava para próximo do garoto. Abaixou-se para ficar da sua altura e, com as mãos em seus ombros, olhou firme para o pequeno e continuou o seu sermão:

- Ousadia! É preciso haver ousadia para que um sonho não se torne uma prisão. Vê, o tempo hoje não é o melhor para se navegar. Virá uma grande chuva que me dará muito trabalho. O mar não está calmo, as condições são adversas. Eu posso ficar sonhando em seguir viagem por conta disso tudo ou posso ousar e realizar o sonho de partir.

- Você já foi ao mar muitas vezes. É mais fácil ousar assim, não é?

- Talvez. Mas eu não diria que já fui ao mar muitas vezes. Um verdadeiro marinheiro só vai ao mar uma única vez e de lá ele nunca volta. Ele apenas faz pequenas pausas em terra firme. E apenas quando precisa. A sua vida é o mar.

Os dois ficaram se olhando longamente até que o capitão decidiu que era hora de partir. Levantou-se e se despediu do menino bagunçando-lhe os cabelos. O garoto desceu do barco a contragosto, mas já estava suficientemente transbordando de emoções para continuar ali. Olhou o capitão sussurrar suas últimas palavras para o mar, imaginando que, de tudo o que já ouvira em sua vida, nada se comparava àquelas palavras. Deveriam ser belas e poéticas e encantadoras. Tão logo o capitão terminou de sussurrar, chamou a bordo a tripulação que aguardava em terra. Todos entraram, tomaram seus postos e o barco começou a navegar. Primeiro lentamente até ganhar velocidade e, aos poucos, distanciar-se no horizonte e aproximar-se do céu, onde haveria sempre mais um pouco de vida a ser deixada e de sonho a se alcançar.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sobre pontes

“Quando a vida dá muitas voltas, a gente pode ficar tonto”, pensou. Olhava para os olhos de apetite da garota e se perguntava se deveria dizer todas as coisas que queria. Ela complicava seus pensamentos, bagunçava tudo dentro dele, e ele gostava disso. Ela o bagunçava de uma forma que, estranhamente, o colocava no lugar, e ele definitivamente gostava disso.

- Quer dizer que a vida dá muitas voltas e pode ser que um dia a gente volte a ficar junto?

- Foi o que acabei de dizer – ela disse, mordendo os lábios e torcendo a boca como quem não sabe se agradou.

E não agradou, mas o seu jeito, seu olhar, e a esperança... dizer o que ela disse era sentenciar que uma porta continuaria aberta. Havia a esperança de... um dia. Não seriam apenas amigos, seriam amigos que um dia, se a vida der voltas, podem voltar a ficar juntos. Isso lhe parecia suficiente, embora fosse difícil. Preferia um ‘não’ curto e grosso e seguir em frente a se ver agarrado a uma possibilidade remota. Mas nem tudo é como a gente quer, nem tudo é como a gente quer.

- Está bem. Se você pensa que assim é melhor, então...

- Eu penso que assim é o único jeito – ela interrompeu, fechando os olhos e abaixando a cabeça. – Por que agora não dá. Agora não.

Deixaram o silêncio tomar conta da conversa. Um rebuliço de sensações e lembranças invadiu seus corações. Não podiam trocar olhares e não podiam trocar palavra. Tudo estava terminado, sem ao menos ter começado direito. Padeceram silenciados, deixando que a distância crescesse naturalmente entre eles. Não queriam participar do processo de separação, então apenas deixaram ruírem sozinhas as pedras da ponte que haviam construído juntos. E elas foram ruindo, uma a uma, caindo pesadamente sobre o rio do sentimento, fazendo jorrar gotas e gotas de águas frias que gelavam a alma tão logo tocavam o chão. Os minutos se passaram e, no silêncio, tudo se desfez. E a ponte caiu por completo assim que a garota rompeu a solenidade do silêncio, dando um frio ‘boa noite’ e deixando a cadeira arrastar ruidosamente atrás de si para sair.

Ele permaneceu quieto, olhando para o nada, sem responder, desejando que as próximas horas apenas voassem com o vento. Ficou sentado por muitos minutos, tentando absorver toda a conversa, imaginando o quanto poderia ter falado, e, mais importante, o quanto deveria ter calado, escutado e compreendido.

Por fim, levantou-se e seguiu seu rumo para casa, ainda pensativo, pés pesados. No caminho, uma ponte destruída lhe chamou a atenção. Sob a ponte, por onde já não se podia andar, pedras meio afundadas, permaneciam meio para fora. “Algum aventureiro poderia tentar passar por elas, uma por uma, saltando, até chegar ao outro lado”, sorriu, sentindo a esperança brotar e reacender-lhe o brilho dos olhos.

Foi quando reparou que, um pouco mais adiante, havia uma outra ponte construída para cumprir o mesmo papel daquela que ruíra.

E sobre a ponte havia uma garota.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sobre calma

Loucos, ele diria, loucos.

Rodrigo desceu correndo as escadas do prédio, sem paciência para esperar o elevador. Saiu pela portaria esbarrando no síndico sem pedir desculpas. Entrou em seu carro e começou a dirigir nervosamente para lugar algum. Pensava e repensava. Ponderava todas as coisas que vira e ouvira. Não conseguia ordenar os pensamentos, não conseguia retomar a calma e tranqüilidade que lhe eram tão particulares. Respirava e inspirava profundamente na esperança de se acalmar, mas nada resolvia.

Se ele não podia se acalmar sozinho, precisaria de algo que lhe ajudasse. Reconduziu o carro para o Parque da Cidade, onde poderia buscar um local isolado e silenciado, para isolar-se e silenciar-se. Silenciar-se, exterior e interiormente, era do que precisava. Saíra correndo de casa para não tomar nenhuma atitude drástica, pois sabia que nas horas de nervosismo e frustração era capaz de fazer grandes besteiras. Nesses momentos, era preciso retomar a paz do coração antes de fazer qualquer coisa.

Chegou ao parque e estacionou o carro embaixo de uma mangueira carregada de mangas meio verdes, meio maduras. O céu nublado prenunciava uma possível chuva de verão, rápida e passageira. Desceu do carro sem o guarda-chuva esperando que de fato chovesse e ele pudesse refrescar o corpo e as ideias no silêncio sagrado das águas caindo. Poucas pessoas caminhavam naquele dia, Brasília já estava de férias e muitos já haviam viajado para encontrar suas famílias em outras cidades ou apenas passar as festas de fim de ano em outro lugar. Rodrigo observava a pouca movimentação e caminhava lentamente com pensamentos soltos ao vento. Passou por algumas senhoras que conversavam alto; um senhor de idade com físico invejável e fôlego de jovem; crianças pedalando velozmente e garotas conversando sobre qualquer futilidade. A vida seguia normalmente. O mundo era indiferente à sua angústia.

“Louco”, pensou, “talvez eu seja o louco”. Continuou procurando o lugar isolado que desejava. Encontrou-o perto do laguinho, num pequeno bosque com árvores altas. Desejou subir em uma delas, e foi o que fez. Como criança que descobre o mundo vivendo aventuras sempre novas, subiu de galho em galho até uma altura de seis ou sete metros, não sabia ao certo. Lembrou-se da infância, do quanto o mundo era simples, do quanto a vida era boa e sem complicações. Deixou-se deitar em um galho maior e arriscou encostar a cabeça e fechar os olhos. Uma pequena vertigem e tontura o atingiram, mas ele sabia que o mundo só girava em sua cabeça. E como o mundo girava em sua cabeça! Girava rápido.

Conteve-se. Não abriu os olhos e, enquanto a vertigem crescia e crescia, começou a cantar uma música para acalmar-se. Cantava baixo somente para si e ouvia sua voz rouca e engasgada saindo da garganta guturalmente. A canção embalou um sono, o sono transformou-se em sonho e no sonho ele voava, e voando encontrava as nuvens, que não eram feitas de algodão, mas de uma névoa rala e fresca que se dissolvia tão logo ele passava a mão sobre ela. Quando respirava, o ar gelado incendiava-lhe todo o pulmão e do pulmão todo o sangue. Sentia-se interiormente vivo. Sentia seu interior e percebia que era muito mais do que aquilo que lhe acontecia exteriormente.

E, nunca soube como, acordou em pé, na porta de sua casa, de coração aberto e aliviado, pronto para refazer os laços que se perderam.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Sobre mudanças

"Às favas esse bando de idiotas pensadores. Pensam que podem determinar os rumos de minha vida, mas esquecem que da minha vida cuido eu", pensou raivosamente Gabriela. Enquanto todos a olhavam atônitos, pegou sua bolsa e sua pasta, aprumou-se no salto e saiu sem dar uma última satisfação que fosse. A noite havia sido cansativa, acordar cedo fora cruel e chegar na reunião para encontrar os colegas de trabalho julgando suas decisões e apontando seus erros foi a gota d'água. Já não sabia se queria continuar naquele emprego e, agora, com esse último acontecimento, decidiu definitivamente por sair de cena.

E saiu. E tudo passou a ser novo, como ela jamais imaginara. E, sem saber o que fazer ou para onde ir, começou a reinventar-se.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sobre caminhar

Abriu os olhos. O corpo doído e cansado clamou por permanecer na cama por mais longos minutos, horas. Lutou contra a vontade do corpo e se levantou, vencendo-se a si mesmo já no primeiro instante do dia. Ao se levantar, percebeu-se em um lugar diferente, misterioso.

Era noite e o vento uivava forte, congelando-lhe a face, o corpo e o pensamento. O terreno era pedregoso, com pequenos declives que atrapalhavam o andar e deixavam-lhe inseguro em seguir em frente. Vez ou outra, vislumbrava uma árvore ou uma grande pedra em sua frente e desviava o caminho. Caminhar olhando para frente era perigoso, pois podia tropeçar. Caminhar olhando para o chão dava-lhe o risco de acertar a cabeça em algum lugar.

Seguia em frente, assim, olhando para o chão e para frente, para o chão e para frente, cuidadosa e lentamente. À medida em que avançava, o dia começou a raiar, alaranjado e belo, e o vento impetuoso se transformou em brisa leve e sossegada.

Percebeu-se amadurecido em seu caminhar. Já não era tão inseguro e o terreno, de tanto seguir em frente, tornou-se mais leve e plano, e macio e delicado. Caminhava a passos firmes, fitando o horizonte distante que se aproximava a cada monte que começava a subir, para então se distanciar imenso, infindo no longínquo distar que, ao subir o monte, agora se revelava. E o horizonte se punha longe, até ser de novo alcançado. E novamente, longe... E caminhar, estranhamente, dava-lhe cada vez mais forças de caminhar. E o ar que respirava era puro e revigorante.

Caminhou assim por mais muitos dias. O incansável, que se cansava deveras, mas que continuava a caminhar.

E assim seguiu, até que a leve brisa que por dias o aconchegava, transformou-se novamente em vento forte, mas agora quente e violento. Acertando-lhe com grãos de areias que vinham do deserto à frente. E a grama transformou-se em areia. E o sol rachava-lhe a cabeça e lhe ardia o corpo inteiro. E olhar pra frente era impossível devido ao vento. E caminhar era cansativo e doloroso. E a vontade de desistir e se deixar jogado ali mesmo era terrível e angustiante. E o pensamento da morte lhe assaltava a cada instante. E no horizonte só se via areia e mais areia. E à noite, o frio era congelante e sofrível e desesperador.

E a sede era tamanha. E a sede era tamanha!

E a presença que sempre sentira ao seu lado, fazia-se ausente. Mas a Esperança o impelia. E a paz que já sentira, e os caminhos que percorrera, lembravam-lhe que vale a pena caminhar. E o caminheiro caminhou, com pernas doídas, mas caminhou.

E, seguindo sempre em frente, depois de longo sofrimento e ausência, sentiu que o ar trazia novos ventos. E aquilo o acalmou. Era novamente brisa. E agora fresca, e úmida. E o som do marulhar atingiu seus ouvidos, dando-lhe alegria. Alegria! E ele sorria. E caminhar era novamente prazeroso. E, ao subir um último monte, avistou o oceano, imenso, majestoso, grandioso. E correu ao seu encontro. E nele entrou, e dele retirou novas forças. E descansou suas pernas. E encontrou um pequeno bote, onde entrou. Ergueu velas e se deixou guiar.

O vento, que lhe acompanhava desde o início, lhe impeliu para águas profundas. O sol era suave, as noites eram amenas. O mar era calmo, sereno. E o horizonte nunca se aproximava. E a terra ficou para trás, muito para trás, até se perder de vista e um pouco mais, e mais um pouco.

E para todo o lado era apenas o mar, e o horizonte e o vento a lhe levar.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sobre histórias e sonhos

Era uma vez um reino, onde havia um rei, uma rainha e muitos aldeões. Havia também um príncipe que, com seu bravo e veloz cavalo, vivia aventuras fantásticas, combatia vilões e dragões e, nas horas de folga, inventava histórias para as crianças da vila. Elas ouviam as histórias e desejavam viver as aventuras, os romances e as trapalhadas contadas. E ninguém sabia, mas, a cada dia, seus corações se enchiam de desejos de que suas vidas fossem repletas de todas aquelas possibilidades sonhadas, fossem elas impossíveis ou não.

domingo, 10 de julho de 2011

Sobre cansaço

Ele descansou os olhos, sentado em frente ao computador. Necessitava expressar um pouco de si, mas não sabia quem era naquele momento, ou o que sentia, ou o que queria. Tudo era calmo em seu coração e naquela noite muitas coisas haviam terminado. Deitou-se, esperando que o dia seguinte lhe desse a sensação de recomeço.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sobre cobranças

Vez ou outra via-se feliz, extremamente contente com o resultado e o andamento da vida. Outras tantas, se entediava, ou pior, se doía. A vida cobrava o tempo todo e vivia tentando atender às expectativas dos outros e as próprias. E sofria quando não conseguia. Pensava que poderia ser mais feliz se pudesse escolher ter menos compromissos e poder tomar conta mais de si, mas se esquecia de que tinha exatamente a vida que escolhera. E a cobrança que fazia sobre si mesma a esmagava. E só largou as preocupações excessivas quando se deu conta de que ninguém nascera para ser super-heroi.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sobre a morte e a vida

Quando chegou, uma folha seca desprendeu-se de um galho, desceu calma do alto em uma dança ao mesmo tempo lúgubre e bela. Rodopiava ao vento, lentamente, fazendo curvas, idas e vindas, voltas e revoltas, até pousar aos seus pés. Enquanto ele observava a exibição graciosa da natureza, pensava sobre a morte e a vida. Velórios sempre o faziam pensar. Poucas vezes se entristecera de verdade, mas sempre saía reflexivo, e até mesmo disposto. Disposto a viver a vida de uma forma nova, mais vivida e menos arrastada.

Entrou na capela e deparou-se com o corpo velado. A família em volta do pai, irmão, marido... todos choravam um pranto inconsolado, mas permaneciam firmes, com uma certeza estampada no rosto que só os que confiam podem ter. O choro era saudade, o choro era vazio, mas de forma alguma desespero. Encontrou os familiares, deu um abraço apertado e disse poucas palavras que para ele pareciam sem sentido naquele momento. Nessas horas, as palavras sempre sobravam.

Encontrou um canto meio vazio, meio escondido onde ficar. Estava só, entre amigos e família do falecido, mas não via nenhum conhecido presente. Permaneceu ali, observando, esperando o triste e necessário rito de despedida de um corpo já sem vida, imóvel. Era necessário despedir-se. Os últimos momentos em que os olhos veriam o rosto antes tão presente em suas vidas, mas que agora nunca mais seria visto. E nunca mais, pensou, é muito tempo!

Ouvia algumas conversas soltas ao seu redor:

- Como eu odeio velórios - disse uma senhora bem apessoada à sua direita, para o homem que deveria ser seu esposo. - É tão triste, nos faz pensar em coisas tão ruins.

O senhor ao lado apenas meneou a cabeça afirmativamente, enxugando os olhos da senhora com um lenço branco.

Ele já sabia disso. As pessoas, de forma geral, odeiam ter que partilhar a dor e, principalmente, senti-la. Mas, estranhamente, achava que esses momentos traziam muitos aprendizados. O problema das pessoas com velórios é que eles as obrigam a pensar na vida. E isso era algo muito sério. Pensar na vida exige de nós uma força e uma ousadia que teimamos em manter reprimidas e desacordadas. Pensar na vida e na morte exige de nós a coragem da mudança. Acontece que o ser humano vive com medo. É o medo de não dar conta, de lutar anos e anos por algo que talvez não alcance. Então, busca o caminho mais fácil. O caminho das coisas certas, que lhe proverão de certa felicidade e comodismo. Daí, para aliviar sua consciência de não estar enfrentando os desafios por conta de medos, afoga-se numa rotina desesperada, sem parar, sem refletir ou avaliar-se. E o medo esconde-se debaixo do tapete... escondido, invisível, mas ainda presente.

Então, a morte de alguém lhe coloca diante de outra questão. Não é mais o medo de não conseguir, de lutar e morrer na praia. A morte, o velório, confronta-o com o medo de morrer sem fazer da vida algo que valha a pena. E, necessariamente, a morte de alguém lhe dá o tempo necessário - uma tarde que seja, uma madrugada - para pensar no assunto. E tudo o que se quer é que aquilo acabe, as exéquias sejam ditas, o corpo enterrado, e com ele todos os pensamentos que tiram a paz placebo que a rotina entediante dá ao coração. Enfrentar seus próprios medos, eis o maior medo dos homens, eis do que eles fogem dia e noite...

Em outro canto, enquanto pensava todas essas coisas, havia um padre conversando com a esposa. Ele a consolava com palavras catequéticas, teológicas. Palavras que encontravam o racional facilmente, mas que teriam que enfrentar uma longa jornada até chegar ao coração.

- Ele agora está no descanso eterno. Lembre-se que a tristeza da perda é nossa. Ele está bem, e não poderia estar melhor.

Alguma coisa naquelas palavras estranhamente tocou fundo no seu ser. Ele já não ouvia a conversa ou sequer se dava conta de onde estava. Pensar na possibilidade de um descanso eterno fez com que saísse de si e se imaginasse em um paraíso onde apenas descansasse. Ele pensou que talvez isso fosse por demais entediante. O paraíso não deveria ser assim... Um eterno descanso. Mas, então, pensou nas tantas vezes em que se sentira esgotado, completamente sem forças para continuar em pé, resistindo bravamente para levantar-se num dia após o outro e outro...

Pensou que poderia existir esse descanso eterno. E pensou que gostaria muito de vivê-lo, mas apenas se chegasse cansado, exausto, consumido. Consumido... essa era a palavra. Decidiu que queria consumir-se até a última gota de suor, até o último pingo de sangue, buscando seus ideais, colocando em prática seus projetos, estando onde precisassem dele, esquecendo completamente de si e doando-se a todos. Imaginou que se conseguisse consumir assim a sua vida, desgastando-se em absoluto, um descanso eterno seria uma experiência mais que merecida.

E confrontou o medo de viver com a vontade de se entregar inteiramente a algo que valha a pena. Olhou para as pessoas a sua volta e, de repente, sentiu-se extremamente só em seus pensamentos. Por que ia tão longe nessas reflexões? De que lhe adiantavam? Não poderia simplesmente viver sem questionar-se?

Enquanto o corpo era levado à sepultura, com os vivos em procissão, pensou: "Tenho sempre que fazer uma escolha: encarar de frente, na solidão, o profundo que há em mim, ou ignorá-lo e apenas viver o dia-a-dia."

E voltou pra casa, mais vivo em seus pensamentos.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sobre uma flor

Certa vez, me vi parado diante de uma flor, encantado com a sua pequenez e insignificância. Não, não estava apreciando a sua beleza, sentindo seu perfume ou coisa que o valha. Apenas olhava para ela e me dava conta da sua falta de importância. Apenas uma flor dentre outras tantas, num jardim no meio da cidade movimentada, num local onde não havia bancos para sentar ou calçada para descansar. Uma flor que não contribuía em nada para ninguém.

Permaneci ali, pensando, buscando um motivo para querê-la bem ou razões para considerá-la especial, afinal, todo ser criado deve ter sua importância na magnífica roda da vida... mas não encontrei... Nenhum dos argumentos que me impus foram suficientes para me convencer. E cheguei à fatídica conclusão: aquela flor não tinha valor.

E, tristemente, segui meu rumo para casa. Meu pensamento, no entanto, ficou para trás. Sem encantos, sem perspectivas de ser algo para alguém, sua vida passaria despercebida por todos os outros habitantes do planeta Terra. Provavelmente, eu havia sido - e continuaria sendo - o único a parar para olhá-la, o único que tirara algum pequeno proveito de sua mera existência sem sentido e sem cor. Se ela tivesse olhos, eles esbanjariam solidão e medo e se tivesse lábios eles estariam cerrados, incapazes de se abrir em um sorriso, por breve que fosse.

Assaltado por pensamentos tão estranhos e atormentado pela dor inexistente de uma flor, vi-me incapaz de continuar o percurso que seguia. Parei. Dei meia-volta. Retornei para o jardim que continha a flor. Voltei decidido a colhê-la e plantá-la em um vaso, em minha casa, para que vivesse junto de alguém, fazendo com que tivesse sentido sua brevíssima passagem entre nós.

Ao chegar no jardim, deparei-me com a flor sorrindo, satisfeita em estar ali. Constrangido e sem entender, fitei o olhar sobre ela por longo tempo, procurando compreender o porquê de sua felicidade. Sequer compreendia como ela sorria - na linguagem das flores, mas sorria. Cheguei a perguntar, em voz alta, como um louco que, em momento de insanidade, pensa poder falar com as coisas: "Por quê sorris?"; mas não obtive resposta.

Depois de um tempo, deixei-a a sós com sua felicidade sem motivos e voltei para casa. Naquele dia, rendi-me a uma conclusão inevitável, que, até então, não fazia parte de minha visão de mundo. Aquela flor, inútil e sem graça, me disse com sua existência breve e sem sentido que a vida não exige explicações.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sobre tomar para si

Foi uma experiência única, fantástica. Ele estava sentado no banco, apenas olhando para frente e contemplando a vida. Revisava os últimos dias, a correria, o cansaço e buscava dar um sentido a tudo aquilo por que passava. Aos poucos, uma paz tomava conta de si, mas sabia que tão logo saísse dali os tormentos continuariam.

Sem que ele notasse, ela se aproximou e sentou ao seu lado. Calada, recostou a cabeça em seu ombro e chorou. Ele, surpreso, apenas segurou sua mão e permaneceu ali, firme, sem questionar ou enchê-la de perguntas desnecessárias. O choro era amargo e ele sentia a respiração ofegante da garota tomar conta de todo o corpo dela.

Depois de um tempo, ela começou a falar. Não foram muitas as palavras, e nem explicavam tudo aquilo que ela sentia, ou o que a fazia chorar, mas foram tão intensas e cheias de dor que ele ficou intensamente comovido e perdido, sem saber o que fazer para ajudá-la.

- O que posso fazer pra te ajudar?

- Nada. Só esteja ao meu lado.

Ele permaneceu firme, mas chorou por dentro, desejando ardentemente que toda aquela dor lhe fosse transferida. Se ele pudesse, tomaria sobre si toda a angústia que estava no coração dela e juntaria às suas próprias, não importava o quanto ele mesmo passaria a sofrer, desde que ela fosse poupada da dor.

E ele desejou isso verdadeiramente. E quando o desejou, passou a compreender muitas coisas.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sobre a vista da minha janela

Olho pela janela. Lá embaixo, nas ruas da cidade mal iluminada, contemplo vidas se perderem em um emaranhado de prazeres, contendas, vícios e ódios. Gargalhadas de desespero podem ser ouvidas em meu apartamento, enquanto sinto o frio gelar minhas mãos e pés. E a solidão gela meu coração.

Penso se haverá uma saída para o desespero. Tantos rostos inocentes que não tem para onde seguir, ou com quem conversar. Tudo que precisam é de um abraço, mas só o que lhes oferecem é um trago, ou uma arma. Aceitam, pois, sem culpa.

Sinto-me condenado a sobreviver nessa selva sem regras, sem paz. Culpo o mundo por permitir que tal situação se tenha instalado sob minha janela. Culpo o sistema, a religião, a política. Minhas mãos congeladas desenham palavras de consolo no ar úmido da janela que jamais chegarão a seus destinatários.

Lá embaixo, enquanto crianças se desviam de um caminho que nunca lhes foi apresentado, as sirenes soam, portas se abrem e olhos vermelhos inocentes encaram a arma da justiça e da paz. Chutes, choros e sangue. Correria, gritos. O riso vem fardado.

E assim, a sociedade vil segue seu rumo. E eu culpo o mundo, contemplando a cena na distância da minha janela.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre uma conversa

Ficou atônito! Como assim, de graça? Nada nesse mundo é assim, de graça. Apesar de achar bem suspeito, aceitou, mas não sem antes questionar.
- Assim? De graça?
- É. De graça - respondeu o outro.
- Mas... mas eu... quanto é? Quanto você quer?
- Não quero nada, é de graça! - disse rindo levemente.
Olhou para aquilo que havia em sua mão. Ele recebera, de graça, e não era nem seu aniversário.
- Tá. Ok! Mas agora eu tenho que te retribuir de alguma forma. O que posso fazer por você?
- Nada. Não precisa fazer nada.
- Ok. Eu sei que não precisa, é de graça e aquela coisa toda. Mas agora eu quero retribuir. Não me sentirei bem se não retribuir.
- Então, não retribua. Não por isso.
Aquela conversa já o estava cansando. Ok. Iria pensar em algo pra dar de retribuição. Não precisava contar o que era, nem quando... era só dar de surpresa. Mas parecia que o outro estava entendendo o que ia acontecer, porque logo em seguida comentou:
- E se estiver pensando em fazer a mesma surpresa que eu, só por que está se sentindo obrigado a isso, pode esquecer. Não vai ser a mesma cosia. Nunca vai ser a mesma coisa. Por que eu já me antecipei. Eu já o presenteei, de graça.
- Puts. Mas então. Eu vou ter uma dívida pra sempre com você - disse, tentando achar uma saída para aquela situação embaraçosa.
- Sim. E não.
- Como assim? - ele não estava entendendo.
O outro respondeu, calmamente:
- Vai ser pra sempre, mas não é uma dívida, por que foi um presente e não precisa ser paga.
- E o que vai ser pra sempre, então?
- A sua gratidão. A lembrança da surpresa. A esperança de um dia receber outro presente assim, gratuitamente, e sentir-se amado como hoje.
A gratidão. O outro falara em gratidão e só agora ele percebia que não agradecera.
- Errr. É... Ok. Antes de mais nada, muito obrigado, viu? - disse timidamente.
- De nada. Literalmente, de nada.
Mas não era só isso. Não era só agradecer. Por que esse gesto tão repentino? Ele estava começando a ficar nervoso, por que não entendia. Pensou, antes de continuar.
- Ok -disse. - Agora, qualquer coisa que eu te faça, de certa forma, vai ser por retribuição a esse seu gesto. Querendo ou não, vai ser. E aí? Como fica?
O outro parou um tempo. Talvez não tivesse pensado nisso ainda. Agora, tudo era resposta. Nada mais seria uma simples ação, desprovida de sentido, pura, sem interesse.
- Então que assim seja.
- E tudo bem pra você? Vai ser tudo por retribuição, e nada vai ser natural.
- Não é retribuição, por que não se retribui um presente. E é natural, por que não é obrigado.
Agora ele estava nervoso, realmente.
- Não é por obrigação, mas é por retribuição. Eu quero retribuir - disse em tom forte - por que eu também te amo!
Silêncio.
Respiração forte... respiração leve.
- Ah - disse O outro depois de um momento. - Agora sim.
Ele sorriu. "É - pensou - agora sim".
- Boa noite, Pai.
- Boa noite, filho.
E as luzes se apagaram.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Sobre um meio sem fim

Quando deu por si, estava correndo. Corria com todas as forças de suas pernas, a respiração ofegante, desviando de troncos, raízes e galhos. Onde estava? Por quê corria? Quem sou eu? A noite era clara, mas a lua cheia iluminava apenas as copas das árvores e pouca luz atravessava o dossel da floresta até o chão. Tomy corria praticamente às escuras. Tomy? Quem é Tomy? Eu sou Tomy? Tomy. Esse é meu nome.

À medida em que corria, adentrava cada vez mais a floresta, que ia se tornando densa, e mais densa. Desviar-se dos obstáculos era difícil e por várias vezes Tomy quase caiu.

Eu não consigo mais. Será que posso parar? Algo - talvez a simples e pura adrenalina - dizia que ele deveria continuar correndo, que era esse seu destino, sua única chance. Arriscou olhar para trás pela primeira vez e pôde perceber ao longe, em meio a folhas e troncos, uma chama a se mover. Um lampião. Alguém carrega um lampião. E corre. Vem atrás de mim. Mas quem? Por quê? Cacete... Eu tenho que correr. Ou...

De um salto, sem ao menos saber como ou onde tinha aprendido e por que adquirira tal capacidade, Tomy agarrou-se a um galho que pendia a alguns metros do chão e com um impulso jogou sua perna por cima de um outro galho mais acima. Sentou-se, pôs-se de pé e escalou mais uns galhos até sentir-se seguro. Medo de altura eu já sei que não tenho.

Lá de cima, parado, evitando mover-se para não fazer qualquer barulho esperou. Esperou. Esperou...

Finalmente, ouviu passos se aproximando. Alguém corria muito... Espera. Os passos são muitos, o barulho é imenso. São vários. Tomy pôde ver abaixo de si uma pequena multidão. Passou um, passaram dois, talvez uns 10 ou mais ao todo. Todos corriam silenciosos. Todos atrás de mim? Que mal poderia ter feito a tanta gente? Serão a polícia? Alguns ficavam para trás, cansados, e a poucos metros de onde Tomy estava um rapaz parou. Ajoelhou-se e prostrou-se por terra, respirando com dificuldade.

- Hey, Argos - um homem voltava vindo atrás do jovem, espada em punhos. Vamos, precisamos estar todos juntos. Não vamos facilitar para o assassino.

- Eu não consigo mais - a voz do rapaz saía com dificuldade e rouca.

Ele parece ser bem jovem. Deve ter uns 15 ou 16 anos. Tem o físico magro, talvez de um corredor, não deve oferecer muitos riscos em uma luta corpo a corpo. Eu o venceria facilmente. Mas por que eu quero vencê-lo?

- Venha - disse o mais velho, aproximando-se. - Vou levar-lhe de volta. Aqui é perigoso.

- Não, pai. Não. Eu não posso desistir de novo.

- Mas se você não aguenta...

- Então, me deixe ficar aqui. Prefiro morrer com honra a fugir como um cachorro vira-lata.

Pai e filho? Desistir de novo? Morrer? Por que eu o mataria? Correm atrás de mim?

A conversa entre pai e filho continuou por mais algum tempo. Tomy calculou que a multidão já estivesse a um ou dois kilômetros de distância. Distância suficiente para ele correr no caminho oposto e ter uma boa vantagem. Mas talvez já estejam voltando. Não correriam tanto tempo a esmo, sem nenhuma pista do ladrão que procuram. Ladrão? Quem é o ladrão? Eu. Eu sou o ladrão. Roubei essa pedra que está no bolso da minha casaca.

Depois de muita conversa. O pai finalmente consentiu em deixar o filho e partiu correndo atrás da multidão que já ia longe. Argos esperou o pai partir antes de olhar para cima.

A espinha de Tomy gelou. Argos olhava diretamente para ele. Estava escuro lá embaixo, provavelmente o rapaz não o estava enxergando, mas sabia exatamente onde Tomy estava. Ele sabe que eu estou aqui em cima. Sabe exatamente a minha posição. Tomy paralisou-se por alguns segundos, pensando se deveria pular e correr, pular pelos galhos ou cair diretamente sobre o oponente, ou descer calmamente, por que afinal, Argos está me esperando para voltarmos. Argos está me esperando? Por que ele estaria me esperando?

- Vamos, Tomy. Desça logo.

- Como sabe que estou aqui? - por que eu respondi? Idiota.

- Essa árvore tá marcada, porra - respondeu Argos impaciente. A gente combinou que você iria subir nela e me esperar. Vamos. Daqui a pouco eles vão perceber que perderam a sua pista e vão voltar. Vamos, Tomy.

Quando Tomy desceu, pôde ver o corte em forma de lua minguante no tronco da árvore. Como soube onde subir? Nem mesmo vira a marca. Cacete. Eu não faço ideia do que está acontecendo.

- Isso. Tá com ela aí? - o olhar de Argos era de desejo. Sua língua passava por entre os lábios e de vez em quando o rapaz mostrava os dentes como uma besta feroz.

- Estou. Acho que estou. Com a pedra? É da pedra que você tá falando?

- Pedra? Onde você tá com cabeça, seu idiota. Ela não é só uma pedra. Ela é tudo.

Argos olhava para todos os lados, como se estivesse com medo de estar sendo observado. Aproximou-se de Tomy e disse ao seu ouvido:

- Deixe-me vê-la.

Eu não posso confiar nele. Seus olhos o traem, sua respiração é forçada e a temperatura do corpo indica nervosismo, farsa. Ele tá fazendo um grande teatro aqui. Filho da mãe, esse cara tá tentando me enganar. Mas o que ele quer com a pedra? O que eu quero com pedra? Que merda de pedra é essa?

Tomy não sabia o que fazer. Já ia levando a mão à pedra, ao bolso de sua casaca, quando ouviu pessoas se aproximando da direção em que a multidão correra. Eram seus perseguidores voltando. Eles haviam perdido muito tempo...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sobre uma festa!

A sala tava cheia. Todos vestiam roupas das mais extravagantes. Coloridas, cheias de panos e brilhantes e colares e relógios. No canto, um cara tocava um piano preto enorme de cauda longa. Uma música animada que empolgava, fazia dançar e criava aquele clima de 'por favor, não pare a música!'. A conversa rolava solta. Os petiscos e as bebidas passavam nas bandejas e evaporavam num segundo. Era uma dessas festas cheias de amigos, na qual você gostaria de estar agora e da qual nunca iria querer sair.

Coisa simples. Vários amigos, música boa, bebida e comida a vontade. E você sabe que isto não é tudo na vida, e você sabe que busca coisas maiores, mas sabe também que tem hora que isso basta e que é tudo o que você quer!!!

Apenas dance! Apenas viva! Apenas seja!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Sobre andar por aí

Eu tenho andado pelas ruas, agasalhado até o pescoço, olhando as luzes da cidade, os rostos mascarados e os gatos, sorrateiros, se espreitando pelos cantos. Tenho andado cabisbaixo, mirando os pés cansados que se alternam na missão de me manter ereto. Enquanto a noite vai se adensando e tomando conta dos corações que dormem, eu só sinto a saudade pungente me envolver por completo, como névoa branca em fria manhã de outono. E a saudade está em todo lado a me envolver.

Reparo nos rostos que passam. Faces que brilham à luz de postes, demonstrando insegurança e medo. Sorrisos que apenas escondem o temor de não fazer suas vidas valerem a pena. Medo de que tudo seja apenas isso: passageiro.

O frio protege o homem da cidade. Ele pode se esconder atrás das roupas. E é o que todos fazem nesses dias de inverno. Passo pelas ruas e vejo apenas faces sendo carregadas por montes de tecidos. Mãos que se enfiam em bolsos aconchegantes e lá se sentem seguras de todo o perigo exterior.

E, não sei por que, tudo isso me faz lembrar você. Sozinha? Sorrindo? Embaixo de cobertas? Tomando um chocolate quente? Quantas possibilidades. Quanto de você não saberei mais. E enquanto você fala, talvez alguém esteja ouvindo. Talvez você só resmungue para as paredes, esperando que uma alma venha te salvar da solidão, da falta. Alguém como eu.

Ando pelas ruas, ignorando os passos que me seguem. Sinto uma mão se fazer presença e me tocar. Quando tudo é solidão, não se quer visitas inesperadas. É preciso ter hora marcada...

Eu me viro. Mãos no bolso.

Apenas mais um estranho. Ele estende a mão, eu ignoro. Ele me encara.

Ele diz:

- Espero que você possa me ajudar a me encontrar. Tenho andado por aí...

E eu completo, sem saber como sei. Sempre soube.

- ... procurando por alguém.

- Isso. Um rosto conhecido...

- ... nessa multidão de desesperados, eu sei.

Faz-se um silêncio.

- Alguém que saiba o que está fazendo - eu digo.

- Ou que não saiba, mas que esteja tranquilo com tudo isso - seu olhar paira distante, além do meu ombro, além das luzes atrás de mim, e mais além.

Eu finalmente aperto a sua mão. O frio congelante esgarça nossas peles. Ambos continuamos nossos caminhos, separados.

Eu tenho andado por aí, sempre procurando alguém a quem perguntar. Eu tenho andado por aí, querendo ouvir as respostas de perguntas que eu nem sei quais são. E foi bom saber que não estou só na busca.

Caminhando solitário, enquanto os primeiros raios atingem, tímidos, a cidade, eu sinto a ânsia de ter alguém ao meu lado. Talvez eu esteja me enganando. Eu tenho andado por aí, procurando por mais gente como eu.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sobre ser vivo

Sempre que podia, João - nosso intrépido João -, vestia uma bermuda quadriculada e sua camisa alaranjada, calçava as chuteiras e ... ia passear a noite, em volta da quadra. A cada três passos, João dava um pulo. Três passos e um pulo, três passos e um pulo, contornando a quadra várias vezes. Era sempre a mesma roupa, no mesmo horário, o mesmo percurso e os mesmos passos e pulos. João fazia disso um ritual, uma forma de manter sua mente jovem, como se a cada vez que repetisse o ato, voltasse no tempo para a primeira vez que o fez.

É meio estranho, eu sei, mas João não é daqueles que se pode chamar normal. Tampouco era louco, ou demente. Não! João era um cara normal... digo, um cara não tão esquisito a ponto de ser taxado de louco, e nem tão pouco estranho a ponto de ser normal. De qualquer forma, ele era apenas um cara comum. Do tipo de gente que você não repara na rua e que você demoraria uma semana ou duas pra reparar na sala de aula.

Mas tinha esse hábito estranho, muito estranho, que ninguém entendia. Quando ele explicava que era um ritual para manter a mente jovem, as pessoas normalmente levantavam a sombrancelha - uma só - balançavam a cabeça lentamente e diziam:

- Ah, sim! - faziam uma pausa e - Aham.

E daí, seguia-se um silêncio constrangedor. Constrangedor para os outros, por que João nem percebia e achava que a pessoa realmente havia entendido. Afinal, o que havia de mais naquilo?

De vez em quando, algum vizinho ou amigo tentava levar a conversa mais a fundo tentando dissuadí-lo de continuar com aquele "hábito idiota", como diziam. João ouvia as súplicas com atenção e, então, tornava a explicar o motivo da repetição daquela atividade. E a pessoa dizia que já havia entendido, mas que não fazia sentido e que era no "mínimo ridículo" e como era seu amigo tinha a obrigação de mostrar a ele que fazendo aquilo as pessoas olhariam para João e o taxariam de louco por que, afinal, pessoas normais não fazem esse tipo de blahblahblahblahblah...

E a ladainha continuava, mas João já não prestava atenção e, a esse tempo, estaria olhando para uma borboleta voando, ou pensando no que comeria no almoço de amanhã. É que João também não conseguia manter muito o foco em conversas desinteressantes, e sua mente rapidamente se desviava para algo mais importante, como o ritmo dos passos da criança do outro lado da rua.

João não se entediava do hábito. Muito pelo contrário, achava extremamente divertido e animador. Vez ou outra não tinha tempo e acabava terminando o dia sem fazê-lo, e aí sentia falta e era como se acordasse no dia seguinte extremamente cansado. Às vezes, também, se cansava da insistência das pessoas de que aquilo era algo idiota. Ele não se importava com as reclamações, mas se cansava delas. Era chato ter que repetir sempre, durante dezenas de anos as mesmas conversas. E João não entendia por que muitos só vinham falar com ele sobre isso.

Sabe-se que João repetiu o ritual durante muitas dezenas de anos, até ser um jovem bem velho.

Certa vez, ninguém o viu durante um mês inteiro. Foram, então, até a casa dele e bateram na porta insistentemente, mas ninguém atendeu.

Chamaram a polícia e entraram à força. Era a primeira vez que alguém entrava em sua casa, que era simples, bem simples. Tinha apenas o essencial para se viver, alguns quadros nas paredes. e retratos nas mesas de uma família que ninguém nunca vira. Sua cama estava perfeitamente arrumada e o quarto estava empoeirado, como se ninguém houvesse passado ali durante muitos dias. João mantinha na cabeceira de sua cama um caderno de anotações. Na capa estava escrito: "O câncer da sociedade: a rotina chata e enfadonha". Dentro do caderno, que era bem antigo, em todas as folhas estava escrito: hoje eu fiz a mesma coisa que ontem.

João não foi encontrado no apartamento, mas no espelho de seu banheiro havia sua última declaração para os tolos que não o entendiam:

"Às vezes, a única forma de saber que se está vivo é poder sentir o mesmo prazer que a criança inocente ao brincar: ela não se cansa; repete os mesmos jogos, mas com espírito sempre novo. A gente não morre quando os dias são iguais, mas quando perde a capacidade de senti-los".

Alguns dizem que João se cansou de sua vida monótona e decidiu viajar pelo mundo, vivendo altas aventuras. Eu não sei. Acho que meu vizinho João tinha muito mais para ensinar do que o que pude aprender com aquela frase. Hoje, imagino que ele esteja por aí, repetindo o mesmo ritual em algum canto do mundo, tentando fazer as pessoas entenderem que é melhor ser um louco vivo a um morto ambulante.

sábado, 31 de julho de 2010

Sobre o fim do mundo

E chegaram ao final do mundo. Dias e dias de viagem recompensados por aquela vista. Lá estavam eles, em fim, no último lugar onde se poderia chegar. E contemplavam o universo que se via além mar. À sua frente, não havia mais nada, senão um imenso abismo intocável em que estrelas faiscavam brilho e cometas que viajavam na densa escuridão.

Cortaram o silêncio sepulcral que reinava.

- Chegamos, meu bem. - disse a mulher, olhando profundamente nos olhos do amado.
- É incrível, não é? - respondeu o homem, maravilhado, encarando o infinito. - O fim do mundo, onde não há mais nada além do resto do Universo.

Sentaram-se na barca e por muitos dias se contentaram em apenas contemplar, em silêncio. Era um momento mágico, convidativo. O silêncio que precisam experimentar aqueles que chegam ao fim de tudo.

Eles tinham todo o resto do Universo pela frente, haviam atravessado todo o mundo conhecido, e tudo o que ficara para trás lhes parecia agora pó, e nada mais que pó.

E, assim, se entregaram à imensidão, ali mesmo, sentindo seus corpos se desfazerem à medida que suas vontades desapareciam. E viraram estrelas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Sobre um sonho

- Acorda, cabeça de bagre! Eu acho que o sol tá mais brilhante hoje, olha.
- Hm... hein?
- Acorda!!!
- Hein? Que horas são?
- São 8h30 ainda. Mas olha...
- Afff. Me deixa dormir, nem tem escola hoje.
- Levanta, idiota! Olha ali.
- Hã? Que foi? ... A escrivaninha? Que tem?
- Não a escrivaninha, em cima dela. A janela...
- Hã, tá fechada... fecha essa cortina.
- Não é pra olhar pra janela, imbecil. É pra olhar pela janela.
- Hã? ... ...

...

- UAU!!! O sol... o sol tá...
- Aham!
- Ele... ele tá mais claro?
- Isso! E lá fora, tá tudo diferente. Levanta daí, miolo-mole. Vem olhar.

...

- Me fala se não é impressionante. Eu acordei mais cedo e fui lá embaixo... tá incrível.
- Nossa! ... Os jardins tão todos verdes. É tipo... um verde brilhante.
- Isso! E olha ali, a piscina lá embaixo. Ninguém limpou, mas ela amanheceu assim... clarinha. Que delícia que deve tá.
- Hei. Olha ali os vizinhos. Eles... eles tão conversando? Vai dar briga.
- Não vai, não. Presta atenção, eles tão...
- Eles tão sorrindo! Ha ha! Olha ali, eles deram um abraço, antes de se despedirem.
- É! Logo os dois que brigam todo dia.
- Caracas... ooooou, e não tem nenhuma nuvem no céu. Tá limpinho.
- É! Cabeça-de-bagre, tem alguma coisa acontecendo.
- Vamo lá embaixo. Se veste aí.

...

- Então, pega a bicicleta e vamo dar uma volta.
- Vamo onde?
- Hm. Num sei, tava pensando em ir lá no lago. Deve ter alguma coisa legal.
- Tá. Bora.

...

- Bom dia, crianças. Cuidado por onde andam, não vão tropeçar numa pedra por aí.
- Bom dia, doutor. Obrigado.
- Você conhece ele?
- Não! Ele tinha mó cara de rabugento. Tá de boa hoje.
- Hehe. Que sonho.
- Cara, pedalar com essa brisa é uma delícia. Olha só...
- Se é. E presta atenção. Tá tudo tão colorido. Tá todo mundo sorrindo.
- Caraca, cabeça-de-melão. Olha ali no portão daquela igreja.
- Ouxi, vamo parar aqui um pouco.
- Caracas. Tem gente de tudo que é jeito. Tem indiano, negro, muçulmano, branco, moreno, japonês.
- E eles tão fazendo o quê?
- Sei lá, festejando alguma coisa. Deve ser missa de alguma coisa.
- Não é só missa, não. Cada um tá fazendo sua prece como conhece, olha só.
- E ninguém tá reclamando do outro. Eles tão é rezando e depois conversando. Que bizarro.
- How bizarre!
- Hey, tive uma ideia. Vamo passar embaixo do viaduto, onde o Jamanta mora.
- Boa ideia.

...

- Ô Jamanta!!! Tá aí?
- Nada do Jamanta, cara.
- Será que ele subiu de vida?
- De ontem pra hoje? Acho difícil.
- Cara, sei não, as coisas dele num tão mas aí.
- Será que a polícia levou ele?
- Ou. Por falar em polícia. Num tinha um ali, na rua que a gente virou? Cadê ela?
- É mesmo! Não vi. Tinha uma sorveteria no lugar.
- Ah! Vamo ali no orfanato.
- Pra quê? Cara... ali vai ter algo errado, não é possível.

...

- Bora, José. Enrola não. Esse parque tem que tá pronto até semana que vem.
- Hey, amigão. O que aconteceu com o orfanato?
- Derrubamos essa noite, por quê? Vai fazer falta?
- Bom, pra gente não. Mas pras crianças vai.
- Que crianças?
- Os órfãos?
- Foram todos adotados.
- Sério? Assim, de repente?
- Sério, garoto. Assim, de repente. Você queria que elas ficassem aí pra sempre?
- Não, não. Mas... e as crianças que forem abandonadas?
- Forem o quê?
- Abandonadas. Largadas pelos pais.
- Você tá bem, garoto? Por que um pai iria largar o filho.
- Sei lá. Por diversos motivos. Falta de dinheiro, vícios, raiva...
- Tá maluco, muleque. Isso tudo é passado. Deixa eu continuar aqui, se não essa obra para.
- O que vocês tão construindo?
- Um parque de diversão.
- Nessa área toda???
- Muleque, quer brincar nesse parque um dia?
- Quero, sim.
- Então, me ajuda a terminar. Vai brincar e volta daqui um mês.

...

- Caraca, cabeça de bagre. O que tá acontecendo?
- Sei não... parece um sonho.
- Um sonho, né? Caramba.
- É... um sonho.
- Cabeça de bagre, bem que podia ser verdade...
- Sei lá. Talvez um dia seja...
- É... ... Quem sabe. Um dia.