De pé, diante das grandes estátuas construídas por seus antepassados, Digory continha-se para não se derramar em lágrimas. Era tudo exatamente como em seus sonhos, apesar de saber que nunca estivera ali. As estátuas imensas que formavam um corredor até o que deveria ter sido o palácio do rei, ou imperador, eram de homens robustos, vestidos de mantos que lhes cobriam todo o corpo e adornados em suas cabeças por coroas reais. O palácio agora estava completamente destruído, e o pouco que lhe sobrara estava tomado por trepadeiras e ervas daninhas.
Digory caminhou por entre os reis de Caledônia, admirando cada face e cada expressão. Tudo era magnífico e diferente aos seus olhos. Não se sentia no mesmo mundo em que nascera, parecia mais do que um outro continente, parecia uma outra dimensão, uma outra vida.
À medida em que se aproximava dos restos do palácio, Digory podia ver com mais clarezas alguns dos detalhes do ambiente. A natureza tratara de manter a realeza e a beleza do local. O garoto não divisava somente trepadeiras e ervas daninhas, mas agora via também belas árvores com folhas douradas, como no outono, mas com um brilho mais intenso e vivo. Alguns troncos eram prateados e os pássaros que faziam ninhos em suas copas eram de um colorido avassalador. O gorjeio das pequenas aves lembrou-lhe o respingar de gotas no fundo de um poço fundo: o gorjeio era agudo e ecoava por todo o vale.
O palácio estava localizado numa depressão, um vale entre dois pequenos montes verdes e intocados. Digory se admirou por não ver construções ou depredação da natureza em volta do mais importante centro de decisões e poder da cidade de Caledônia. Sem dúvida, eram uma civilização culturalmente avançada.
Chegou ao sopé da escada que lhe levaria aos portões do palácio. Seu coração acelerava desmedidamente sem tirar-lhe o ar, o sol aquecia-lhe a face sem a ruborecer e o vento esfriava-lhe sem o gelar. Sentia-se impassível e intocável, um rei destinado a reconstruir toda a sua história.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
sexta-feira, 6 de março de 2009
Sobre uma página...
Assim que sentei, abri de uma vez a revista à minha frente. Como de costume, não esperei nem mesmo meu companheiro desconhecido de viagem se sentar. Sabe aqueles dias em que você não está lá muito pra conversa? Pois é, eu era sempre assim.
Acontece que naquele inesquecível dia, meu companheiro de viagem foi mais persistente em suas tentativas de conversações filosóficas do que eu fui em minhas tentativas de "desculpa, amigo, estou realmente interessado nessa reportagem" ou "estou começando a ficar com sono, acho que vou dormir, boa noite".
Acontece que naquele inesquecível dia, meu companheiro de viagem foi mais persistente em suas tentativas de conversações filosóficas do que eu fui em minhas tentativas de "desculpa, amigo, estou realmente interessado nessa reportagem" ou "estou começando a ficar com sono, acho que vou dormir, boa noite".
O cara era mesmo um mala sem alça. Assim o considerava nas primeiras horas de vôo. Note bem, nas primeiras HORAS. Pra você ter uma idéia, o zé mané fez uma análise sociológica sobre as consequências das intermináveis viagens feitas pelas aeromoças para suas relações amorosas e amistosas - era assim que ele se referias às relações de amizade, relações amistosas.
Por vezes eu tentei me desvencilhar da conversa. Cheguei a falar que tinha que ir ao banheiro, mas quando voltei, o cara retomou o assunto antes mesmo de eu sentar. Puts, pensei na hora, vou dar um soco nesse camarada.
O pior de tudo é que ele não estava interessado em minhas opiniões. Ele só queria falar. Só falar. Até que imaginei que talvez ele não se importasse em não ser ouvido. E foi aí que a coisa mudou de figura. Explico:
Quando parei de prestar atenção, só mantendo o contato formal, digo: balançando a cabeça de vez em quando, dizendo "ahan, ahan" com certa frequência e etc, o cara sacou na hora. "Não faça isso", ele disse, e se calou. Foi a primeira vez em que ele se calou por mais de 10 segundos - na verdade, talvez tenham sido 5 segundos, talvez 3, mas o fato de ele parar de falar fez o tempo correr mais devagar, como se para que eu aproveitasse esse precioso momento.
Olhei assustado pra ele. Ele notara minha irritação - claro, quem não notaria. Mas ele falara por horas e horas sem parar, apesar disso. E quando eu desisti de me irritar e decidi só o ignorar, o cara vem e fica nervosinho. Foi o que pensei na hora.
É. Mal sabia eu que minha vida mudaria completamente a partir daquele momento. As próximas palavras que ele disse abriram minha cabeça, meu coração, minha alma! Ele foi tão contundente, tão ameaçadoramente convincente e tocante - ameaçadoramente tocante, entende isso? - que eu não pude deixar de ser todo ouvidos a ele - dessa vez com gosto e por querer - por mais horas e horas. Infelizmente, o avião chegou a Itália e tivemos que nos separar depois. Mas não faltaram oportunidades para nos encontrar depois. Não. Não faltaram.
- Han? Mas e aí? Me conta, cara. O que ele disse? - o homem calvo, barba por fazer, que estava ao lado de João perguntou impacientemente.
O comandante da aeronave acabara de informar que haviam acabado de ultrapassar a linha do Equador. Muitas horas de vôo haveria ainda, e João teria muito a conversar com Pedro.
- Hm - disse João com ar de displicência - agora tenho a sua atenção? Depois de tantas horas? Sabe, existe um mundo além de nós mesmos. Cada pessoa abarca um mundo em si, e nosso mundo só se preenche quando colide com esses outros mundos. É amigão, tá na hora de você aprender algumas coisas.
Por vezes eu tentei me desvencilhar da conversa. Cheguei a falar que tinha que ir ao banheiro, mas quando voltei, o cara retomou o assunto antes mesmo de eu sentar. Puts, pensei na hora, vou dar um soco nesse camarada.
O pior de tudo é que ele não estava interessado em minhas opiniões. Ele só queria falar. Só falar. Até que imaginei que talvez ele não se importasse em não ser ouvido. E foi aí que a coisa mudou de figura. Explico:
Quando parei de prestar atenção, só mantendo o contato formal, digo: balançando a cabeça de vez em quando, dizendo "ahan, ahan" com certa frequência e etc, o cara sacou na hora. "Não faça isso", ele disse, e se calou. Foi a primeira vez em que ele se calou por mais de 10 segundos - na verdade, talvez tenham sido 5 segundos, talvez 3, mas o fato de ele parar de falar fez o tempo correr mais devagar, como se para que eu aproveitasse esse precioso momento.
Olhei assustado pra ele. Ele notara minha irritação - claro, quem não notaria. Mas ele falara por horas e horas sem parar, apesar disso. E quando eu desisti de me irritar e decidi só o ignorar, o cara vem e fica nervosinho. Foi o que pensei na hora.
É. Mal sabia eu que minha vida mudaria completamente a partir daquele momento. As próximas palavras que ele disse abriram minha cabeça, meu coração, minha alma! Ele foi tão contundente, tão ameaçadoramente convincente e tocante - ameaçadoramente tocante, entende isso? - que eu não pude deixar de ser todo ouvidos a ele - dessa vez com gosto e por querer - por mais horas e horas. Infelizmente, o avião chegou a Itália e tivemos que nos separar depois. Mas não faltaram oportunidades para nos encontrar depois. Não. Não faltaram.
- Han? Mas e aí? Me conta, cara. O que ele disse? - o homem calvo, barba por fazer, que estava ao lado de João perguntou impacientemente.
O comandante da aeronave acabara de informar que haviam acabado de ultrapassar a linha do Equador. Muitas horas de vôo haveria ainda, e João teria muito a conversar com Pedro.
- Hm - disse João com ar de displicência - agora tenho a sua atenção? Depois de tantas horas? Sabe, existe um mundo além de nós mesmos. Cada pessoa abarca um mundo em si, e nosso mundo só se preenche quando colide com esses outros mundos. É amigão, tá na hora de você aprender algumas coisas.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Sobre a primeira página do livro =D
O sinal soou indicando que o elevador chegara no 7º andar. João abriu os olhos a tempo de ver a porta abrir e a claridade do sol, que entrava por uma grande janela logo a frente do elevador, aparecer. A luz no elevador era suave e ao se deparar com a luminosidade intensa do dia teve vontade de permanecer e fazer mais algumas viagens, subindo e descendo, na companhia de si mesmo. Sabia, no entanto, que outras pessoas entrariam, algumas animadas conversando entre si, outras sozinhas e que irremediavelmente fariam um comentário do tipo: "Lindo dia lá fora, não?" ou "Que calor hoje, hein?". Pegou do chão sua pasta preta habitual e saiu.
No caminho entre o elevador e a sala, percorreu dois corredores extensos, apinhados de gente tagarelando e caminhando de um lado para outro com papéis e pastas nas mãos. Algumas pessoas cumprimentaram-no, ele apenas fazia um breve aceno com a cabeça. Perto de sua sala estavam as de seus companheiros de trabalho, de forma que ao se aproximar de seu destino a quantidade de cumprimentos era maior. Seu colega Maicon convidou-o para entrar e tomar um pouco de café "pra ver se te dá mais ânimo e tira esse ar de cansado da cara, cara". Ele recusou o mais gentilmente que pôde.
Entrou na sala, fechou a porta, jogou a pasta em cima da mesinha de café e caiu como uma pedra sobre a cadeira. Antes que pudesse pensar em colocar as mãos sobre o rosto e espremê-lo como quem quer esticar toda a pele até a orelha, ouviu duas batidas na porta. Reconheceu a batida.
- Pode entrar, Maria. - Gritou no tom mais animador que conseguia enquanto rapidamente tirava a pasta da mesinha, colocava-a sobre a mesa de trabalho e arrumava a postura. A última coisa que precisava era de alguém dizendo que estava com cara de abatido e que podia se abrir.
Tarde de mais. Maria o havia visto no corredor e o conhecia o suficiente para saber que estava não só exausto, mas um lixo.
- O que aconteceu? - perguntou a garota de forma amigável e simpática.De fato, a garota podia não ter muito jeito para o trabalho, mas ser simpática e amigável era com ela mesma. João reconhecia isso e para ele era um alívio ter pelo menos uma pessoa em todo aquele edifício com quem pudesse ter uma conversa sincera sem se sentir um completo idiota. Havia duas semanas que conseguira aquele emprego e, desde então, construíra, dia após dia, uma ainda modesta amizade com a garota. Méritos dela, - reconhecia quando pensava em Maria em casa - eu jamais teria me aproximado como ela se aproximou, por motivo algum. Além do mais, jamais seria tão intrometido na vida alheia como ela é. De qualquer forma, essa intromissão nos aproximou de um jeito bacana - sorria.- Nada, Maria, apenas cansaço e dor de cabeça. A claridade do sol agrediu meus olhos e consequentemente minha cabeça, só isso. - Não estava com paciência, nem mesmo para Maria.
Calmamente, com ares de uma médica que acaba de concluir um diagnóstico perfeito e se recorda instantaneamente de um tratamento infalível, a garota sentou-se na cadeira sobressalente da sala, cruzou as pernas, colocou as duas mãos sobre a saia que ia até os joelhos - bonitas pernas, reparou João, desviando os olhos antes que a garota reparasse em seu interesse - e disse:
- Muito bem. Que tal virar um vampiro e sair só a noite. Ou vir para o trabalho às 5h da manhã, entrar na sala e só sair às 19h. O chefe iria adorar, você ganharia horas extras e se agendássemos visitas de colegas de trabalho você ficaria mais sociável do que já é - isso foi deboche, pensou. - Ou, essa idéia é a melhor - interrompeu-se por um minuto e continou com mais seriedade - , você comprar uns óculos escuros e ver se o mau-humor, a irritação, o desânimo, a tristeza, e quem sabe até a depressão vão embora com a luz do sol. O que acha?
João deu um leve sorriso. A garota conseguia deixá-lo um pouquinho mais animado sempre que queria. Antes que pudesse responder, ela continuou - às vezes ela fala de mais -:
- Sério, João. As pessoas estão começando a comentar que você é um saco - disse, aumentando o volume da voz na última palavra para dar mais ênfase. - O Maicon já tá até achando que o problema é com ele. Que ele fez alguma coisa de que você não gostou nos primeiros dias. Eu tento explicar que você é uma pessoa legal, que tem sim suas manias chatas, mas quem não tem? Mas já não dá mais pra sustentar minhas opiniões. Tão falando que, em breve, não vão tá mais nem aí pra você. Vão deixar você no seu canto, cuidando da sua vidinha, e que pela primeira vez alguém não vai se entrosar no grupinho da galera.
O grupinho da galera, afff. Odeio essa expressão. Não tinha nenhum jeito mais criativo de se referirem ao grupo, sei lá: Liga da Justiça, A turma do bairro... qualquer coisa...
- Você sabe que eu não me sinto bem no meio deles.
- Sei, e sei também que é sem motivos. - Ela começara a ficar nervosa, ele nunca a tinha visto nervosa, ficava mais bonita. - Já conversamos sobre isso, já tentamos achar os motivos, mas tudo o que você me diz é que:
A garota assumiu uma voz aguda e feições de deboche e balançava a cabeça de um ombro ao outro enquanto falava:
"O Douglas tem uma mania de ficar perguntando toda hora se tá tudo bem comigo... O Maicon só sabe falar de mulher e dar nota pra bunda das estagiárias quando elas passam... Fulano é muito falante e Ciclano é sempre sacaneado, isso me incomoda..." Pô, fala sério - retornou à sua fala normal, mas ainda um pouco irritada - a galera se conhece a um tempão já, tem lá suas manias, é verdade... é só questão de você se enturmar, se acostumar com as manias e pronto. Você vai ver o quanto eles são gente boa e como podem ser bons amigos. Cara, - dessa vez a irritação passara - trabalhar fica bem mais legal quando você se diverte de vez em quando com a galera.
Ela tinha toda razão, ele sabia disso, mas não queria dar o braço a torcer naquela hora. Não bastasse o desânimo com que chegara, ainda teria que reconhecer a culpa pelo isolamento e de certa forma humilhar-se perante a garota. Não aguentaria as duas sensações juntas. Fez sinal de sim com a cabeça e disse:- Tá, vou pensar no seu caso. Agora, vá trabalhar que eu sei que você ainda não terminou o relatório semanal.
- Quem disse?
- Um passarinho que disse te conhecer o suficiente pra saber que você ainda não fez.
Maria mostrou a língua e fez um HUMMM prolongado. Levantou-se e deu uma última palavra com João:
- Você sabe ser legal quando quer. Só tem que aprender a ser legal quando não quer, até que ser legal seja legal sempre. Sacou?
Disse que não, mas que prometeria pensar profundamente sobre aquilo nas próximas horas. Ela saiu rindo.
No caminho entre o elevador e a sala, percorreu dois corredores extensos, apinhados de gente tagarelando e caminhando de um lado para outro com papéis e pastas nas mãos. Algumas pessoas cumprimentaram-no, ele apenas fazia um breve aceno com a cabeça. Perto de sua sala estavam as de seus companheiros de trabalho, de forma que ao se aproximar de seu destino a quantidade de cumprimentos era maior. Seu colega Maicon convidou-o para entrar e tomar um pouco de café "pra ver se te dá mais ânimo e tira esse ar de cansado da cara, cara". Ele recusou o mais gentilmente que pôde.
Entrou na sala, fechou a porta, jogou a pasta em cima da mesinha de café e caiu como uma pedra sobre a cadeira. Antes que pudesse pensar em colocar as mãos sobre o rosto e espremê-lo como quem quer esticar toda a pele até a orelha, ouviu duas batidas na porta. Reconheceu a batida.
- Pode entrar, Maria. - Gritou no tom mais animador que conseguia enquanto rapidamente tirava a pasta da mesinha, colocava-a sobre a mesa de trabalho e arrumava a postura. A última coisa que precisava era de alguém dizendo que estava com cara de abatido e que podia se abrir.
Tarde de mais. Maria o havia visto no corredor e o conhecia o suficiente para saber que estava não só exausto, mas um lixo.
- O que aconteceu? - perguntou a garota de forma amigável e simpática.De fato, a garota podia não ter muito jeito para o trabalho, mas ser simpática e amigável era com ela mesma. João reconhecia isso e para ele era um alívio ter pelo menos uma pessoa em todo aquele edifício com quem pudesse ter uma conversa sincera sem se sentir um completo idiota. Havia duas semanas que conseguira aquele emprego e, desde então, construíra, dia após dia, uma ainda modesta amizade com a garota. Méritos dela, - reconhecia quando pensava em Maria em casa - eu jamais teria me aproximado como ela se aproximou, por motivo algum. Além do mais, jamais seria tão intrometido na vida alheia como ela é. De qualquer forma, essa intromissão nos aproximou de um jeito bacana - sorria.- Nada, Maria, apenas cansaço e dor de cabeça. A claridade do sol agrediu meus olhos e consequentemente minha cabeça, só isso. - Não estava com paciência, nem mesmo para Maria.
Calmamente, com ares de uma médica que acaba de concluir um diagnóstico perfeito e se recorda instantaneamente de um tratamento infalível, a garota sentou-se na cadeira sobressalente da sala, cruzou as pernas, colocou as duas mãos sobre a saia que ia até os joelhos - bonitas pernas, reparou João, desviando os olhos antes que a garota reparasse em seu interesse - e disse:
- Muito bem. Que tal virar um vampiro e sair só a noite. Ou vir para o trabalho às 5h da manhã, entrar na sala e só sair às 19h. O chefe iria adorar, você ganharia horas extras e se agendássemos visitas de colegas de trabalho você ficaria mais sociável do que já é - isso foi deboche, pensou. - Ou, essa idéia é a melhor - interrompeu-se por um minuto e continou com mais seriedade - , você comprar uns óculos escuros e ver se o mau-humor, a irritação, o desânimo, a tristeza, e quem sabe até a depressão vão embora com a luz do sol. O que acha?
João deu um leve sorriso. A garota conseguia deixá-lo um pouquinho mais animado sempre que queria. Antes que pudesse responder, ela continuou - às vezes ela fala de mais -:
- Sério, João. As pessoas estão começando a comentar que você é um saco - disse, aumentando o volume da voz na última palavra para dar mais ênfase. - O Maicon já tá até achando que o problema é com ele. Que ele fez alguma coisa de que você não gostou nos primeiros dias. Eu tento explicar que você é uma pessoa legal, que tem sim suas manias chatas, mas quem não tem? Mas já não dá mais pra sustentar minhas opiniões. Tão falando que, em breve, não vão tá mais nem aí pra você. Vão deixar você no seu canto, cuidando da sua vidinha, e que pela primeira vez alguém não vai se entrosar no grupinho da galera.
O grupinho da galera, afff. Odeio essa expressão. Não tinha nenhum jeito mais criativo de se referirem ao grupo, sei lá: Liga da Justiça, A turma do bairro... qualquer coisa...
- Você sabe que eu não me sinto bem no meio deles.
- Sei, e sei também que é sem motivos. - Ela começara a ficar nervosa, ele nunca a tinha visto nervosa, ficava mais bonita. - Já conversamos sobre isso, já tentamos achar os motivos, mas tudo o que você me diz é que:
A garota assumiu uma voz aguda e feições de deboche e balançava a cabeça de um ombro ao outro enquanto falava:
"O Douglas tem uma mania de ficar perguntando toda hora se tá tudo bem comigo... O Maicon só sabe falar de mulher e dar nota pra bunda das estagiárias quando elas passam... Fulano é muito falante e Ciclano é sempre sacaneado, isso me incomoda..." Pô, fala sério - retornou à sua fala normal, mas ainda um pouco irritada - a galera se conhece a um tempão já, tem lá suas manias, é verdade... é só questão de você se enturmar, se acostumar com as manias e pronto. Você vai ver o quanto eles são gente boa e como podem ser bons amigos. Cara, - dessa vez a irritação passara - trabalhar fica bem mais legal quando você se diverte de vez em quando com a galera.
Ela tinha toda razão, ele sabia disso, mas não queria dar o braço a torcer naquela hora. Não bastasse o desânimo com que chegara, ainda teria que reconhecer a culpa pelo isolamento e de certa forma humilhar-se perante a garota. Não aguentaria as duas sensações juntas. Fez sinal de sim com a cabeça e disse:- Tá, vou pensar no seu caso. Agora, vá trabalhar que eu sei que você ainda não terminou o relatório semanal.
- Quem disse?
- Um passarinho que disse te conhecer o suficiente pra saber que você ainda não fez.
Maria mostrou a língua e fez um HUMMM prolongado. Levantou-se e deu uma última palavra com João:
- Você sabe ser legal quando quer. Só tem que aprender a ser legal quando não quer, até que ser legal seja legal sempre. Sacou?
Disse que não, mas que prometeria pensar profundamente sobre aquilo nas próximas horas. Ela saiu rindo.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Sobre um desafio
Como você está continuando aquilo que os outros começaram, João?
Não está na hora de parar e refletir sobre suas atitudes? E sobre seus princípios e valores? Sobre suas escolhas, com certeza, não?
Ah, as escolhas. Elas falam mais de nós mesmos do que nós percebemos... e queremos.
Estamos acostumados a falarmos de nós mesmos, mas enquanto falamos e ninguém ouve, o que fazemos grita aos olhos de quem vê. E não tem como despistar com palavras o que a visão demonstra.
Você é preguiçoso? Você é desleixado? Qual seu maior desejo? Ajudar o próximo? Hahaha! Desde que ele esteja a meio metro e não bata à sua porta no dia seguinte, estou certo?
Você se sente covarde, João? Acha que não? Tem certeza? O que você diz é o que você é ou o que você acredita? Ou, ainda, o que gostaria de acreditar?
Nem você acredita nas próprias mentiras, não é? Você apenas fingi que acredita, tenta se convencer de algumas inverdades e vive como se, de fato, estivesse convencido delas.
Eu sei que, na verdade, você está convencido de outra coisa... está convencido de que não dá mais pra suportar o peso de viver mentiras. O que fazer, então, João? Esquecer as verdades e viver as mentiras? Ou transformar as mentiras em verdades?
Você prefere a segunda opção e eu posso te ajudar. E vou te ajudar. Mas você precisa me dizer uma coisa, João. Você precisa me prometer uma coisa: você vai confiar em mim.
Você confia em mim, João?
Não está na hora de parar e refletir sobre suas atitudes? E sobre seus princípios e valores? Sobre suas escolhas, com certeza, não?
Ah, as escolhas. Elas falam mais de nós mesmos do que nós percebemos... e queremos.
Estamos acostumados a falarmos de nós mesmos, mas enquanto falamos e ninguém ouve, o que fazemos grita aos olhos de quem vê. E não tem como despistar com palavras o que a visão demonstra.
Você é preguiçoso? Você é desleixado? Qual seu maior desejo? Ajudar o próximo? Hahaha! Desde que ele esteja a meio metro e não bata à sua porta no dia seguinte, estou certo?
Você se sente covarde, João? Acha que não? Tem certeza? O que você diz é o que você é ou o que você acredita? Ou, ainda, o que gostaria de acreditar?
Nem você acredita nas próprias mentiras, não é? Você apenas fingi que acredita, tenta se convencer de algumas inverdades e vive como se, de fato, estivesse convencido delas.
Eu sei que, na verdade, você está convencido de outra coisa... está convencido de que não dá mais pra suportar o peso de viver mentiras. O que fazer, então, João? Esquecer as verdades e viver as mentiras? Ou transformar as mentiras em verdades?
Você prefere a segunda opção e eu posso te ajudar. E vou te ajudar. Mas você precisa me dizer uma coisa, João. Você precisa me prometer uma coisa: você vai confiar em mim.
Você confia em mim, João?
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Sobre uma idéia! =D
Desde que recebeu a ordem dos próximos desafios, não conseguiu se concentrar sequer nas atitudes mais banais e cotidianas. Começava a escovar os dentes e quando caía em si estava tomando banho. Calçava o tênis antes da calça, e mais de uma vez colocou meias com pares trocados.
Toda essa história está me deixando do avesso. Não entendo esse cara, não sei o que ele quer... Aliás, não sei como EU fui chegar a esse ponto. Digo, não era difícil ter desistido. Era só parar de dar ouvidos, ponto!
João sabia que não estava sendo sincero. O 'cara' tinha mais do que palavras sedutoras, ele era cheio de vida. O 'cara' era o cara que João queria ser e por isso era tão difícil desvencilhar-se da vontade de cumprir os desafios. Cumpri-los levaria-o a ser outro 'cara', seja lá como isso se daria.
- De qualquer forma, não vou começar agora. Preciso espairecer as idéias - disse de si para si - e nada melhor do que uma boa caminhada no parque para isso.
No entanto, aguentar-se sozinho com todos os pensamentos perambulando em sua cabeça não seria fácil. Decidiu ligar para Maria e ver se a garota toparia a pequena jornada de 5 km. Nada melhor do que uma caminhada e um bom papo para espairecer as idéias.
Prontamente pegou o telefone e ligou.
- Alô, respondeu a voz sonolenta do outro lado.
João reconheceu a voz instantaneamente.
- Maria. Que ótimo, você está a toa, senão não estaria durmindo. Sendo assim, parque daqui a 30 minutos. No lugar de sempre. Até lá.
Desligou. Esperou o telefone tocar. Não tocou. Ela entendera o recado e topara a parada.
Calçou o tênis, depois do short e com meias certas, e foi.
to be continued
Toda essa história está me deixando do avesso. Não entendo esse cara, não sei o que ele quer... Aliás, não sei como EU fui chegar a esse ponto. Digo, não era difícil ter desistido. Era só parar de dar ouvidos, ponto!
João sabia que não estava sendo sincero. O 'cara' tinha mais do que palavras sedutoras, ele era cheio de vida. O 'cara' era o cara que João queria ser e por isso era tão difícil desvencilhar-se da vontade de cumprir os desafios. Cumpri-los levaria-o a ser outro 'cara', seja lá como isso se daria.
- De qualquer forma, não vou começar agora. Preciso espairecer as idéias - disse de si para si - e nada melhor do que uma boa caminhada no parque para isso.
No entanto, aguentar-se sozinho com todos os pensamentos perambulando em sua cabeça não seria fácil. Decidiu ligar para Maria e ver se a garota toparia a pequena jornada de 5 km. Nada melhor do que uma caminhada e um bom papo para espairecer as idéias.
Prontamente pegou o telefone e ligou.
- Alô, respondeu a voz sonolenta do outro lado.
João reconheceu a voz instantaneamente.
- Maria. Que ótimo, você está a toa, senão não estaria durmindo. Sendo assim, parque daqui a 30 minutos. No lugar de sempre. Até lá.
Desligou. Esperou o telefone tocar. Não tocou. Ela entendera o recado e topara a parada.
Calçou o tênis, depois do short e com meias certas, e foi.
to be continued
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