quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sobre uma festa!

A sala tava cheia. Todos vestiam roupas das mais extravagantes. Coloridas, cheias de panos e brilhantes e colares e relógios. No canto, um cara tocava um piano preto enorme de cauda longa. Uma música animada que empolgava, fazia dançar e criava aquele clima de 'por favor, não pare a música!'. A conversa rolava solta. Os petiscos e as bebidas passavam nas bandejas e evaporavam num segundo. Era uma dessas festas cheias de amigos, na qual você gostaria de estar agora e da qual nunca iria querer sair.

Coisa simples. Vários amigos, música boa, bebida e comida a vontade. E você sabe que isto não é tudo na vida, e você sabe que busca coisas maiores, mas sabe também que tem hora que isso basta e que é tudo o que você quer!!!

Apenas dance! Apenas viva! Apenas seja!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Sobre andar por aí

Eu tenho andado pelas ruas, agasalhado até o pescoço, olhando as luzes da cidade, os rostos mascarados e os gatos, sorrateiros, se espreitando pelos cantos. Tenho andado cabisbaixo, mirando os pés cansados que se alternam na missão de me manter ereto. Enquanto a noite vai se adensando e tomando conta dos corações que dormem, eu só sinto a saudade pungente me envolver por completo, como névoa branca em fria manhã de outono. E a saudade está em todo lado a me envolver.

Reparo nos rostos que passam. Faces que brilham à luz de postes, demonstrando insegurança e medo. Sorrisos que apenas escondem o temor de não fazer suas vidas valerem a pena. Medo de que tudo seja apenas isso: passageiro.

O frio protege o homem da cidade. Ele pode se esconder atrás das roupas. E é o que todos fazem nesses dias de inverno. Passo pelas ruas e vejo apenas faces sendo carregadas por montes de tecidos. Mãos que se enfiam em bolsos aconchegantes e lá se sentem seguras de todo o perigo exterior.

E, não sei por que, tudo isso me faz lembrar você. Sozinha? Sorrindo? Embaixo de cobertas? Tomando um chocolate quente? Quantas possibilidades. Quanto de você não saberei mais. E enquanto você fala, talvez alguém esteja ouvindo. Talvez você só resmungue para as paredes, esperando que uma alma venha te salvar da solidão, da falta. Alguém como eu.

Ando pelas ruas, ignorando os passos que me seguem. Sinto uma mão se fazer presença e me tocar. Quando tudo é solidão, não se quer visitas inesperadas. É preciso ter hora marcada...

Eu me viro. Mãos no bolso.

Apenas mais um estranho. Ele estende a mão, eu ignoro. Ele me encara.

Ele diz:

- Espero que você possa me ajudar a me encontrar. Tenho andado por aí...

E eu completo, sem saber como sei. Sempre soube.

- ... procurando por alguém.

- Isso. Um rosto conhecido...

- ... nessa multidão de desesperados, eu sei.

Faz-se um silêncio.

- Alguém que saiba o que está fazendo - eu digo.

- Ou que não saiba, mas que esteja tranquilo com tudo isso - seu olhar paira distante, além do meu ombro, além das luzes atrás de mim, e mais além.

Eu finalmente aperto a sua mão. O frio congelante esgarça nossas peles. Ambos continuamos nossos caminhos, separados.

Eu tenho andado por aí, sempre procurando alguém a quem perguntar. Eu tenho andado por aí, querendo ouvir as respostas de perguntas que eu nem sei quais são. E foi bom saber que não estou só na busca.

Caminhando solitário, enquanto os primeiros raios atingem, tímidos, a cidade, eu sinto a ânsia de ter alguém ao meu lado. Talvez eu esteja me enganando. Eu tenho andado por aí, procurando por mais gente como eu.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sobre ser vivo

Sempre que podia, João - nosso intrépido João -, vestia uma bermuda quadriculada e sua camisa alaranjada, calçava as chuteiras e ... ia passear a noite, em volta da quadra. A cada três passos, João dava um pulo. Três passos e um pulo, três passos e um pulo, contornando a quadra várias vezes. Era sempre a mesma roupa, no mesmo horário, o mesmo percurso e os mesmos passos e pulos. João fazia disso um ritual, uma forma de manter sua mente jovem, como se a cada vez que repetisse o ato, voltasse no tempo para a primeira vez que o fez.

É meio estranho, eu sei, mas João não é daqueles que se pode chamar normal. Tampouco era louco, ou demente. Não! João era um cara normal... digo, um cara não tão esquisito a ponto de ser taxado de louco, e nem tão pouco estranho a ponto de ser normal. De qualquer forma, ele era apenas um cara comum. Do tipo de gente que você não repara na rua e que você demoraria uma semana ou duas pra reparar na sala de aula.

Mas tinha esse hábito estranho, muito estranho, que ninguém entendia. Quando ele explicava que era um ritual para manter a mente jovem, as pessoas normalmente levantavam a sombrancelha - uma só - balançavam a cabeça lentamente e diziam:

- Ah, sim! - faziam uma pausa e - Aham.

E daí, seguia-se um silêncio constrangedor. Constrangedor para os outros, por que João nem percebia e achava que a pessoa realmente havia entendido. Afinal, o que havia de mais naquilo?

De vez em quando, algum vizinho ou amigo tentava levar a conversa mais a fundo tentando dissuadí-lo de continuar com aquele "hábito idiota", como diziam. João ouvia as súplicas com atenção e, então, tornava a explicar o motivo da repetição daquela atividade. E a pessoa dizia que já havia entendido, mas que não fazia sentido e que era no "mínimo ridículo" e como era seu amigo tinha a obrigação de mostrar a ele que fazendo aquilo as pessoas olhariam para João e o taxariam de louco por que, afinal, pessoas normais não fazem esse tipo de blahblahblahblahblah...

E a ladainha continuava, mas João já não prestava atenção e, a esse tempo, estaria olhando para uma borboleta voando, ou pensando no que comeria no almoço de amanhã. É que João também não conseguia manter muito o foco em conversas desinteressantes, e sua mente rapidamente se desviava para algo mais importante, como o ritmo dos passos da criança do outro lado da rua.

João não se entediava do hábito. Muito pelo contrário, achava extremamente divertido e animador. Vez ou outra não tinha tempo e acabava terminando o dia sem fazê-lo, e aí sentia falta e era como se acordasse no dia seguinte extremamente cansado. Às vezes, também, se cansava da insistência das pessoas de que aquilo era algo idiota. Ele não se importava com as reclamações, mas se cansava delas. Era chato ter que repetir sempre, durante dezenas de anos as mesmas conversas. E João não entendia por que muitos só vinham falar com ele sobre isso.

Sabe-se que João repetiu o ritual durante muitas dezenas de anos, até ser um jovem bem velho.

Certa vez, ninguém o viu durante um mês inteiro. Foram, então, até a casa dele e bateram na porta insistentemente, mas ninguém atendeu.

Chamaram a polícia e entraram à força. Era a primeira vez que alguém entrava em sua casa, que era simples, bem simples. Tinha apenas o essencial para se viver, alguns quadros nas paredes. e retratos nas mesas de uma família que ninguém nunca vira. Sua cama estava perfeitamente arrumada e o quarto estava empoeirado, como se ninguém houvesse passado ali durante muitos dias. João mantinha na cabeceira de sua cama um caderno de anotações. Na capa estava escrito: "O câncer da sociedade: a rotina chata e enfadonha". Dentro do caderno, que era bem antigo, em todas as folhas estava escrito: hoje eu fiz a mesma coisa que ontem.

João não foi encontrado no apartamento, mas no espelho de seu banheiro havia sua última declaração para os tolos que não o entendiam:

"Às vezes, a única forma de saber que se está vivo é poder sentir o mesmo prazer que a criança inocente ao brincar: ela não se cansa; repete os mesmos jogos, mas com espírito sempre novo. A gente não morre quando os dias são iguais, mas quando perde a capacidade de senti-los".

Alguns dizem que João se cansou de sua vida monótona e decidiu viajar pelo mundo, vivendo altas aventuras. Eu não sei. Acho que meu vizinho João tinha muito mais para ensinar do que o que pude aprender com aquela frase. Hoje, imagino que ele esteja por aí, repetindo o mesmo ritual em algum canto do mundo, tentando fazer as pessoas entenderem que é melhor ser um louco vivo a um morto ambulante.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sobre várias coisas

Microconto 1

Ele chegou ao parque. Correu e se sentou para descansar. Ela sentou ao lado. Conversaram. No dia seguinte, ele estava lá, no mesmo banco, olhos fechados. Quando ela sentou, ele sorriu.

Microconto 2

O terremoto destruiu tudo ao redor. Perdeu a família e todos os bens. Não havia onde ficar ou descansar. Desconsolo. Procurou por seus amigos, a única coisa que lhe restara. Encontrou-os:
- Onde vocês estiverem, - falou - ali será meu lar.

Microconto 3

Ele voltou da guerra. Reencontrou-a depois de tanto tempo. Ela segurava uma criança no colo e ele perdeu as esperanças de que ela o tivesse esperado.
- É mãe?
- Aham.
- Qual o nome?
- João Pedro.
- Meu nome? - disse surpreso.
- Seu filho - respondeu chorando sorrindo.

Microconto 4

Acordou de um péssimo sonho. Suado, descobriu-se e se levantou da cama, mas o chão não estava lá. Caiu vertiginosamente durante horas. Acordou assustado! O despertador tocava. Era hora de seguir para o colégio. Quando chegou, os alunos o olhavam torto. Ele estava completamente nu. Sobressaltado, acordou. Dessa vez, não quis se levantar. Acordou.

Microconto 5

Alguém batia à porta. Alguém esmurrava a porta. Desceu correndo para atender. Abriu. A rua estava deserta, era tarde da noite. Estranhando, fechou a porta e se virou. No topo da escada agora estava um menino triste. Ela gritou e tentou sair, mas a porta estava trancada e não havia chave.

Microconto 6

Que dia! Não queria que ele acabasse mais. Mas era inevitável:
- Se as coisas boas durassem muito tempo, talvez não soubéssemos o quanto são importantes - pensou para si.
Todos já haviam ido embora, menos ela, que ainda vestia o casaco para sair.
- Hey. Fica mais um pouco?
E prolongaram a noite ao infinito, como dois que caminham pro horizonte.

Microconto 7

Ele pensou que poderia passar o dia todo escrevendo. Afinal, não hava muito o que fazer no trabalho. Colocou o fone e deixou que Dave Matthews ditasse as regras dos microcontos.

Microconto 8

Quase toda noite eles faziam a mesma coisa. Preparavam o jantar, comiam, conversavam e deitavam para se amar. Ela desejava mais. Ele percebeu, mas não sabia o que fazer. Finalmente, comprou passagens para a Europa. Ela sorriu e o abraçou. Lá, passeavam de dia. A noite, jantavam, conversavam e voltavam para o hotel para se amar. Oras, era a Europa!

Microconto 9

Naquele dia, na escola, ouviu que as crianças eram o futuro da nação. "Sinceramente", pensou, "não acho que os adultos estejam cuidando muito bem do que será meu". E recusou-se a herdar o mundo.

Microconto 10

O violino dava o tom. A bateria ritmava. O sax solava. O público se sentia imerso em notas musicais que fluíam do palco como que por encanto. A música tinha cor e criava um mundo inteiro.

Microconto 11

Quis um conto muito curto.

sábado, 31 de julho de 2010

Sobre o fim do mundo

E chegaram ao final do mundo. Dias e dias de viagem recompensados por aquela vista. Lá estavam eles, em fim, no último lugar onde se poderia chegar. E contemplavam o universo que se via além mar. À sua frente, não havia mais nada, senão um imenso abismo intocável em que estrelas faiscavam brilho e cometas que viajavam na densa escuridão.

Cortaram o silêncio sepulcral que reinava.

- Chegamos, meu bem. - disse a mulher, olhando profundamente nos olhos do amado.
- É incrível, não é? - respondeu o homem, maravilhado, encarando o infinito. - O fim do mundo, onde não há mais nada além do resto do Universo.

Sentaram-se na barca e por muitos dias se contentaram em apenas contemplar, em silêncio. Era um momento mágico, convidativo. O silêncio que precisam experimentar aqueles que chegam ao fim de tudo.

Eles tinham todo o resto do Universo pela frente, haviam atravessado todo o mundo conhecido, e tudo o que ficara para trás lhes parecia agora pó, e nada mais que pó.

E, assim, se entregaram à imensidão, ali mesmo, sentindo seus corpos se desfazerem à medida que suas vontades desapareciam. E viraram estrelas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O mundo não é como eu quero! (Sem 'sobre' por que não é literatura)

Hoje me aconteceu, novamente, algo que só acontece muito, muito, muito raramente. Fiquei chateado, e mentalmente cansado, e só conseguia pensar em coisas negativas, tipo: isso não tá legal; aquilo tá faltando; fulano deveria fazer assim e não assado. Odeio quando isso acontece. Odeio mesmo.

De vez em quando, essas coisas acontecem mesmo. A vida é assim. Dessa vez, graças a Deus, foi um pouco diferente. Tirei desse sentimento ruim uma boa lição.

Eu estava triste. É. Juntando todos os cacos e bagaços de mim que ficaram espalhados pelo canto, acho que a conclusão a que posso chegar é essa: eu estava triste. Era uma tristeza carregada de responsabilidade, de expectativas frustradas, de medos aflorando... Enfim, era uma tristeza triste.

Depois de me remoer em solidão e me deixar pensar todos os podres que queria, uma simples reflexão me veio, como que num raio veloz e luminoso, à cabeça. Eu estava triste por que o mundo, naquele momento, não estava sendo como eu queria. O mundo a que me refiro são as pessoas, as situações e, de certo modo, eu mesmo, que estávamos "acontecendo" ali. Eu esperava uma coisa, eu queria uma coisa, eu acreditava em uma coisa, eu tinha opinião, mas nada disso estava sendo seguido. O mundo não estava me seguindo. Eu não era o centro das atenções, o senhor das decisões. E daí vinha minha tristeza. Das expectativas frustradas.

Que meleca! Lembrei-me de uma frase: "Acho que está mais do que na hora do mundo mudar para se adaptar a mim". Frasezinha engraçada, né? É do Calvin&Haroldo.

Pois é. Engraçadinha, mas extremamente falsa. O mundo não tem que mudar pra se conformar a ninguém. As pessoas são o que são e, por isso, agem como agem e, consequentemente, as coisas acontecem, quer você as queira, quer não. Não adianta ficar triste. Não, não adianta.

Mas se quiser ficar triste também... pode ficar. Não tem problema. Às vezes é bom.

Enfim, o importante é a reflexão. O mundo não para por que você tá de bubu. Ninguém vai te perguntar se você quer que seja diferente, para que tudo aconteça da forma que você quer. Não, ninguém vai.

Então faça o seguinte. Acolha as realidades que você não pode mudar. Se alegre com elas, se possível. Tire lições. Procure entender quais são as coisas que você pode mudar e tente mudar para que elas se adequem a você. Mas cuidado! Muito cuidado! Mesmo que você possa mudar uma situação, pense antes se a sua opinião, a sua ideia, o seu modo de ver a coisa é o modo certo. Às vezes você está chateado por não ser como você quer, mas se fosse, também não seria bom.

Lembre-se: diversidade é bom! Se tudo fosse conforme a sua vontade, o mundo provavelmente seria bem mais sem graça. Lembre-se: cada pessoa está vivendo uma experiência diferente, ainda que a situação seja a mesma. Elas têm visões e participações diferentes. Não precisam estar no seu ritmo, não precisam se preocupar como você se preocupa. Lembre-se: PARE de se preocupar. Daqui a 10 anos, essa tensão que você deixou tomar conta de você vai lhe tirar um pouco da saúde, e, quando você olhar pra trás, a situação que causou o stress vai parecer tão sem importância...

Acho que é isso.

O pior é terminar esse texto, com toda essa reflexão, ainda com aquele aperto no peito... Nada que uma boa noite de sono não resolva. E se não resolver, tudo bem. Nem tudo é como a gente quer.

Sobre um sonho

- Acorda, cabeça de bagre! Eu acho que o sol tá mais brilhante hoje, olha.
- Hm... hein?
- Acorda!!!
- Hein? Que horas são?
- São 8h30 ainda. Mas olha...
- Afff. Me deixa dormir, nem tem escola hoje.
- Levanta, idiota! Olha ali.
- Hã? Que foi? ... A escrivaninha? Que tem?
- Não a escrivaninha, em cima dela. A janela...
- Hã, tá fechada... fecha essa cortina.
- Não é pra olhar pra janela, imbecil. É pra olhar pela janela.
- Hã? ... ...

...

- UAU!!! O sol... o sol tá...
- Aham!
- Ele... ele tá mais claro?
- Isso! E lá fora, tá tudo diferente. Levanta daí, miolo-mole. Vem olhar.

...

- Me fala se não é impressionante. Eu acordei mais cedo e fui lá embaixo... tá incrível.
- Nossa! ... Os jardins tão todos verdes. É tipo... um verde brilhante.
- Isso! E olha ali, a piscina lá embaixo. Ninguém limpou, mas ela amanheceu assim... clarinha. Que delícia que deve tá.
- Hei. Olha ali os vizinhos. Eles... eles tão conversando? Vai dar briga.
- Não vai, não. Presta atenção, eles tão...
- Eles tão sorrindo! Ha ha! Olha ali, eles deram um abraço, antes de se despedirem.
- É! Logo os dois que brigam todo dia.
- Caracas... ooooou, e não tem nenhuma nuvem no céu. Tá limpinho.
- É! Cabeça-de-bagre, tem alguma coisa acontecendo.
- Vamo lá embaixo. Se veste aí.

...

- Então, pega a bicicleta e vamo dar uma volta.
- Vamo onde?
- Hm. Num sei, tava pensando em ir lá no lago. Deve ter alguma coisa legal.
- Tá. Bora.

...

- Bom dia, crianças. Cuidado por onde andam, não vão tropeçar numa pedra por aí.
- Bom dia, doutor. Obrigado.
- Você conhece ele?
- Não! Ele tinha mó cara de rabugento. Tá de boa hoje.
- Hehe. Que sonho.
- Cara, pedalar com essa brisa é uma delícia. Olha só...
- Se é. E presta atenção. Tá tudo tão colorido. Tá todo mundo sorrindo.
- Caraca, cabeça-de-melão. Olha ali no portão daquela igreja.
- Ouxi, vamo parar aqui um pouco.
- Caracas. Tem gente de tudo que é jeito. Tem indiano, negro, muçulmano, branco, moreno, japonês.
- E eles tão fazendo o quê?
- Sei lá, festejando alguma coisa. Deve ser missa de alguma coisa.
- Não é só missa, não. Cada um tá fazendo sua prece como conhece, olha só.
- E ninguém tá reclamando do outro. Eles tão é rezando e depois conversando. Que bizarro.
- How bizarre!
- Hey, tive uma ideia. Vamo passar embaixo do viaduto, onde o Jamanta mora.
- Boa ideia.

...

- Ô Jamanta!!! Tá aí?
- Nada do Jamanta, cara.
- Será que ele subiu de vida?
- De ontem pra hoje? Acho difícil.
- Cara, sei não, as coisas dele num tão mas aí.
- Será que a polícia levou ele?
- Ou. Por falar em polícia. Num tinha um ali, na rua que a gente virou? Cadê ela?
- É mesmo! Não vi. Tinha uma sorveteria no lugar.
- Ah! Vamo ali no orfanato.
- Pra quê? Cara... ali vai ter algo errado, não é possível.

...

- Bora, José. Enrola não. Esse parque tem que tá pronto até semana que vem.
- Hey, amigão. O que aconteceu com o orfanato?
- Derrubamos essa noite, por quê? Vai fazer falta?
- Bom, pra gente não. Mas pras crianças vai.
- Que crianças?
- Os órfãos?
- Foram todos adotados.
- Sério? Assim, de repente?
- Sério, garoto. Assim, de repente. Você queria que elas ficassem aí pra sempre?
- Não, não. Mas... e as crianças que forem abandonadas?
- Forem o quê?
- Abandonadas. Largadas pelos pais.
- Você tá bem, garoto? Por que um pai iria largar o filho.
- Sei lá. Por diversos motivos. Falta de dinheiro, vícios, raiva...
- Tá maluco, muleque. Isso tudo é passado. Deixa eu continuar aqui, se não essa obra para.
- O que vocês tão construindo?
- Um parque de diversão.
- Nessa área toda???
- Muleque, quer brincar nesse parque um dia?
- Quero, sim.
- Então, me ajuda a terminar. Vai brincar e volta daqui um mês.

...

- Caraca, cabeça de bagre. O que tá acontecendo?
- Sei não... parece um sonho.
- Um sonho, né? Caramba.
- É... um sonho.
- Cabeça de bagre, bem que podia ser verdade...
- Sei lá. Talvez um dia seja...
- É... ... Quem sabe. Um dia.